O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, avaliou que uma eventual intervenção militar estrangeira para derrubar o regime islâmico seria uma tarefa "hercúlea, sangrenta" e custosa, com impactos negativos para a economia global. Em entrevista ao jornalista José Luiz Datena no programa Alô Alô Brasil, transmitido pela Rádio Nacional nesta segunda-feira (9), o diplomata analisou o cenário de tensão no país e as possibilidades de resolução do conflito.
Veras destacou que mudanças no regime iraniano não seriam possíveis apenas com ataques aéreos. "[Daí] a discussão sobre o [possível] envio de soldados", afirmou, apontando as dificuldades que tropas estrangeiras enfrentariam em uma incursão terrestre. Entre os obstáculos, citou as dimensões do território iraniano, o terreno montanhoso e a capacidade militar do país.
O embaixador comparou a situação atual com intervenções anteriores dos EUA e ressaltou: "Então, aqui, a coisa vai exigir um pouco mais de esforço se quiserem, realmente, derrubar o regime. E acho que será uma tarefa hercúlea. Sangrenta".
Dez dias após os primeiros ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos - que resultaram na morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e centenas de civis - Veras observou que serviços básicos como água, luz e gás continuam funcionando. "O comércio está aberto. As escolas estão tendo aulas remotamente. Os mercados continuam abastecidos. Não há corte de energia, de água ou gás", relatou, destacando a resiliência da infraestrutura local.
Outro ponto que demonstra a solidez institucional do Irã, segundo o embaixador, foi a rápida substituição de Khamenei por seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, de 56 anos. A Assembleia dos Especialistas (ou dos Peritos) escolheu Seyyed no fim de fevereiro, dias após o pai e parte da família serem mortos em bombardeios. "O Irã está muito bem estruturado legalmente. E o sistema tem uma resiliência muito grande", avaliou Veras.
No entanto, o diplomata ponderou que a escolha do filho de Khamenei pode alimentar críticas internas ao regime. "A revolução islâmica foi feita contra um regime hereditário. E, agora, assumir o filho [de Ali Khamenei], cria uma impressão de que o sistema substituído permanece, de outra forma", explicou. Veras destacou que Seyyed tem forte ligação com a Guarda Revolucionária e setores conservadores dos clérigos, sendo visto como uma resposta dura do Estado ao clima de contestação.
Sobre a situação dos brasileiros no Irã, Veras informou que não houve necessidade de discutir uma operação de retirada, pois as fronteiras terrestres com países vizinhos permanecem abertas e servem como rota de saída. Estima-se que cerca de 200 brasileiros vivam no Irã, principalmente mulheres casadas com iranianos. A embaixada mantém contato diário com o Itamaraty e acompanha casos pontuais, especialmente relacionados a documentação e vistos.
Apesar da resistência do regime iraniano, que Veras considera uma questão "de vida ou morte", o embaixador não descarta uma solução diplomática. Em sua avaliação, o Irã precisa do fim das sanções econômicas impostas pelos EUA, enquanto o mundo precisa de paz para manter a economia global e as rotas comerciais. "Mesmo que alguns possam pensar que o [eventual controle do] fornecimento de petróleo vai favorecer este ou aquele país, em uma economia globalizada, todos perdem [com uma guerra]", advertiu.
Veras concluiu que há espaço para negociações porque os custos da guerra estão aumentando significativamente. "Acho que isto trará um pouco mais de racionalidade à condução do processo", afirmou, mantendo a esperança por uma solução pacífica para o conflito.

