Aos nove anos de idade, Valéria Miranda já carrega uma lição que muitos adultos ainda estão aprendendo: cuidar da natureza não é apenas uma opção, mas uma necessidade para garantir um futuro saudável. Moradora de Caucaia, no Ceará, a menina participa do projeto Ecocidadão, uma iniciativa socioeducativa que tem transformado a relação de centenas de crianças com o meio ambiente.
"Eu gosto de brincar, plantar flores e cuidar da minha família. E aprendi aqui no projeto que se eu separar o resíduo posso fazer outras coisas com ele como casinha, carrinho, para brincar. Também ensinei isso para os meus dois irmãos", conta Valéria, demonstrando como o aprendizado ambiental ultrapassa os muros da escola e se espalha pelas famílias.
O projeto Ecocidadão é promovido pela empresa Marquise Ambiental, que atua no setor de serviços e soluções ambientais. Em parceria com outras empresas, o projeto mantém a escola Novo Destino, onde estudantes de baixa renda recebem reforço escolar no contraturno do ensino formal. Além das aulas tradicionais de matemática e língua portuguesa, os alunos têm um tempo dedicado a descobertas ambientais.
"É uma atividade onde eles desenvolvem competências que vão ser importantes no dia a dia deles, na vida deles. Então a gente consegue trabalhar a educação ambiental, a partir da reciclagem", explica o professor Arley Alves dos Santos, destacando a abordagem prática que conecta aprendizado com realidade.
De acordo com Hugo Nery, diretor-presidente da Marquise Ambiental, a iniciativa de educação ambiental não é uma obrigação contratual da empresa com o poder público ou com a comunidade, mas uma parceria estabelecida por uma relação de confiança. Ao atuar no serviço de coleta seletiva em 11 cidades de seis estados, a empresa busca contribuir com espaços educativos capazes de aproximar a população daquela atividade.
"Quando as pessoas naquele bairro, naquela rua, começam a entender a importância da separação do resíduo e de todo o processo, isso facilita a minha vida como empresa. Então não é uma visão contratual, é uma visão de você olhar para frente e saber como é que o futuro tem que ser", afirma Nery.
Entre as ferramentas utilizadas pelo projeto está o filme de animação O Presente de Cecília, que conta a história de uma menina que, com a ajuda de um amigo do futuro, transforma comportamentos prejudiciais ao meio ambiente através de práticas sustentáveis. Mais de 700 crianças e jovens já assistiram à produção, incluindo Valéria, que encontrou na personagem Cecília uma inspiração para seus cuidados ambientais.
"Eu espero que no futuro a gente tenha uma natureza limpa, para ninguém ficar doente", diz a menina, conectando saúde ambiental com saúde humana de forma simples e poderosa.
Essa compreensão também guia Lorena Ribeiro, universitária de 23 anos natural de Tutóia, no Maranhão. A jovem, que cresceu em contato com manguezais e restinga, decidiu cursar Biologia no Instituto Federal do Maranhão, em Barreirinhas, onde vive atualmente. Além das atividades acadêmicas no Laboratório de Biodiversidade Aquática (BioAqua), Lorena atua como voluntária em iniciativas como a Guardiões do Futuro, promovida pela Fundação Grupo Boticário.
"Meus pais sempre me influenciaram a cuidar realmente do que beneficia a gente, porque não é só a gente que vai ganhar, mas também tem os seres que vivem na natureza, os animais e as plantas", compartilha a universitária.
Em dezembro de 2025, Lorena participou da restauração de 30 hectares de restinga no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, onde foram plantadas 600 mudas nativas para recuperar uma área desmatada irregularmente. O bioma costeiro havia sido afetado em uma área equivalente a quase 40 campos de futebol, ameaçando inclusive o tamanduaí, a menor espécie de tamanduá do mundo.
"A educação ambiental funciona como uma ponte entre o que a gente quer fazer e o que vai acontecer. Não é só para a gente. Temos que ter resiliência para entender que o que fazemos hoje vai beneficiar gerações futuras, a fauna, a flora, animais que realmente precisam daquele bioma, daquele ambiente para sobreviver", reflete Lorena.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estabeleceu a educação ambiental como uma das principais estratégias para enfrentar a tripla crise planetária das mudanças climáticas, da poluição e da perda de biodiversidade. De acordo com a principal autoridade global em questões ambientais, enfrentar esses desafios exige não apenas soluções ou políticas tecnológicas, mas também sociedades informadas, engajadas e capacitadas.
Desde 1975, o 26 de janeiro celebra o Dia Mundial da Educação Ambiental, data que reforça a importância de iniciativas como as que envolvem Valéria, Lorena e tantos outros brasileiros. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU depende justamente dessa cadeia de transformação que começa nas escolas, passa pelas universidades e chega às comunidades, construindo um futuro onde natureza e desenvolvimento caminham juntos.

