A arte contemporânea tem uma relação peculiar com sua própria história: muitas vezes, ela se alimenta de movimentos anteriores, reciclando ideias e transformando referências em novas criações. É essa dinâmica que o artista chileno Waldo Bravo explora em sua exposição Duchamp Revisitado, em cartaz até 25 de fevereiro na sala BDNES da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Com entrada gratuita, a mostra apresenta uma releitura lúdica e atualizada das obras do francês Marcel Duchamp, um dos nomes mais importantes da arte conceitual do século 20.
Para entender a proposta de Bravo, é preciso voltar no tempo. Marcel Duchamp (1887-1968) revolucionou o mundo artístico com seus ready-mades – objetos comuns, como um mictório ou uma roda de bicicleta, que eram elevados à condição de arte simplesmente por serem apresentados em um contexto galerístico. Sua intenção era questionar o próprio conceito de arte e o papel do artista, desafiando noções tradicionais de autoria e estética. "Na minha opinião, e de outros historiadores e críticos de arte, ele é o artista mais importante de toda a história da arte, ou, pelo menos, o mais relevante dos séculos 20 e 21", afirma Bravo.
Na exposição, o chileno se apropria de ícones duchampianos e os reinsere em um contexto contemporâneo, misturando-os com elementos de seu próprio estilo. Um exemplo é a obra E105, uma digigrafia que repete em diversas cores o famoso ready-made A Fonte (1917) – originalmente um mictório de porcelana assinado com o pseudônimo R. Mutt. "Nessa obra de Duchamp, ele questionou a relevância do fazer artístico", explica Bravo. "Ao fazer isso, a obra foi elevada ao status de arte. Com essa transformação ele se pergunta 'qual a relevância do artista fazer arte com as próprias mãos?'"
Outra releitura curiosa aparece na obra E47b, onde Bravo substitui a roda da famosa Roda de Bicicleta (1913) por um ovo frito. Já em B81, o artista acrescenta flores de seda ao Secador de Garrafas (1914). Essas intervenções buscam não apenas recontextualizar as peças, mas também torná-las mais acessíveis ao público geral. "O legado de Duchamp, historicamente, sempre fica restrito a minorias intelectualizadas e longe do grande público", observa o artista. "A exposição busca, de certa forma, aproximar seu pensamento das massas com uma abordagem mais informal, mais descontraída e mais divertida."
Além dos elementos duchampianos, as obras da mostra incorporam signos característicos da produção anterior de Bravo, especialmente da série Auto-apropriações: Arqueologia da Pintura (2015-2018), também conhecida como Signografia arqueo-urbana. Nela, o artista dialoga com referências que vão da arte rupestre ao grafite urbano, criando símbolos recorrentes como círculos com um "x" no centro ou linhas que lembram escadas. "Para mim isso foi natural, não premeditado", comenta Bravo sobre o surgimento desses elementos em seu trabalho.
Essa fusão entre as referências de Duchamp e a linguagem pessoal de Bravo fica evidente em peças como o painel B78, onde obras duchampianas são pintadas sobre um fundo que utiliza a técnica de serigrafia nas cores laranja e azul-escuro. Para o artista, esse processo é uma forma de antropofagia cultural: "No sentido de canibalismo mesmo. Eu me alimento do trabalho duchampiano para criar coisas novas, a arte se alimenta da arte".
Nascido no Chile em 1960, Waldo Bravo estabeleceu-se no Brasil em 1981, onde desenvolveu sua carreira artística. Além de expor em galerias e museus pelo mundo, ele atua como curador e orientador do grupo Contempoarte, que também se apresentou na BBM em 2025. Sua conexão com o espaço da sala BDNES começou justamente durante essa experiência anterior. "Um espaço muito bacana, bem estruturado, amplo, fiquei com vontade de fazer uma exposição minha", relembra. "Enviei a proposta e o projeto foi acolhido. Fiquei muito feliz."
A exposição Duchamp Revisitado pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, São Paulo). A entrada é gratuita e não é necessário agendamento. Mais informações estão disponíveis no site da BBM.

