Um documento interno do diretório acadêmico da Escola de Medicina da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), datado de 1976, veio à tona como prova concreta da vigilância e violações de direitos humanos durante a ditadura militar. O material, apresentado nesta terça-feira (31) no Arquivo Nacional, descreve com riqueza de detalhes como agentes do regime faziam plantão diário na porta dos fundos da instituição, listando até mesmo as cores e placas dos carros utilizados.
"É um documento muito interessante, porque é difícil, em arquivos, a gente ver um texto que fale com tanta clareza sobre esse tipo de violação e traga tantos detalhes. Normalmente, os documentos agem em função do Estado", afirma a diretora do Arquivo Central da Unirio, Isabela Costa. A apresentação ocorreu durante a Semana Ditadura, Arquivos e Memória, evento que reúne até esta quarta-feira (1º) pesquisadores, arquivistas e representantes de movimentos sociais.
O encontro marca os 62 anos do golpe militar que, entre 31 de março e 2 de abril de 1964, depôs o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário que duraria 21 anos. A diretora do Arquivo Nacional, Mônica Lima, reforçou a importância da preservação desses registros. "Os documentos preservados pelo Arquivo Nacional e disponibilizados para acesso público contribuem para pesquisa histórica, para o direito à memória e à verdade, com fortalecimento da cultura de direitos humanos", disse.
Mônica Lima completou: "Eles permitem que a sociedade brasileira conheça melhor a sua própria história e reafirme valores democráticos que devem orientar o presente e o futuro". A fala ecoa em um momento em que notícias relacionadas ao período ganham destaque, como a abertura de inquérito pelo Ministério Público Federal (MPF) para transformar o prédio do DOI-Codi em centro de memória, a transferência de documentos do antigo Dops para arquivo público no Rio de Janeiro e a indenização a uma banda que teve disco censurado na época.
A historiadora Cecília Coimbra, fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ e ex-militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que foi presa e torturada durante a ditadura, destacou o papel pioneiro dos movimentos sociais na busca por documentos. A partir dos anos 1980, esses grupos começaram a acessar arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão de polícia secreta do Estado.
"Conseguimos encontrar depoimentos de pessoas desaparecidas que estavam no Dops. Percebemos que outros haviam sido destruídos, mas nenhum poder é total. Alguns materiais escaparam e a gente encontrou muita coisa interessante. Com esses arquivos, conseguimos ajudar companheiros em outros estados a fazer dossiês de mortos e desaparecidos políticos", relatou Cecília.
No entanto, a luta pela abertura completa dos arquivos continua. "Nenhum arquivo foi aberto, a não ser o do Dops. Faltam os dos centros de informação do Exército, da Aeronáutica, da Marinha, do DOI-Codi, da Polícia Militar, dos Bombeiros. Porque todos participaram da repressão", complementou a ativista.
O evento também teve a participação internacional de Maria Fabiana Almeida, irmã do desaparecido político Alejandro Almeida e filha de uma das fundadoras do movimento Madres de Plaza de Mayo, da Argentina. Seu irmão desapareceu aos 20 anos, em 1976, ano do golpe militar argentino que completou 50 anos no último dia 24 de março, e integra a lista de 30 mil desaparecidos do país vizinho.
"É muito trágico e muito terrível toda essa experiência das mães. No início, pensavam que filhos e filhas estavam em prisões, hospitais, delegacias, mas não imaginavam que nunca mais iriam voltar a vê-los", disse Maria Fabiana. Ela relacionou a situação atual da Argentina, sob o governo de Javier Milei, com a necessidade de manter viva a memória. "Temos vivido na Argentina com esse presidente Javier Milei, um negador absoluto de todas as temáticas de direitos humanos e de todas as conquistas das mulheres, das leis de diversidade e de liberdade de gênero".
A ativista finalizou com um chamado à resistência: "Porém, seguimos nos inspirando na memória e na luta destas mães, que são um símbolo mundial de força das mulheres em plena ditadura. Não podemos nos esquecer do passado, nem ter medo de falar a verdade, porque aqueles tempo podem voltar. Precisamos ter paciência. A justiça vai chegar". O documento de 1976 da Unirio, portanto, não é apenas um registro histórico, mas um instrumento de luta política e um farol para iluminar os caminhos da democracia e dos direitos humanos no Brasil e na América Latina.

