No coração do Vale do Paraíba, uma revolução silenciosa está transformando a relação entre produção rural e conservação ambiental. O Sítio Esperança, em Lagoinha, é um exemplo vivo dessa mudança. Causio Giovani Figueira, 43 anos, viu sua realidade mudar completamente após aderir ao Programa Refloresta SP em novembro de 2024. De uma produção leiteira que oscilava entre 270 e 300 litros diários, o produtor chegou ao impressionante patamar de 700 litros por dia no pico - um crescimento de aproximadamente 159%.
A transformação começou com a entrada de oito novilhas no rebanho, que passou de 25 para 33 animais em lactação. Mas o verdadeiro salto veio com a reorganização produtiva e a implantação de 13,25 hectares de sistema silvipastoril - modelo que integra árvores, pastagem e criação de gado na mesma área. "Foi um momento de grande produção. Meu tanque é de 700 litros por dia e chegou no limite, faltaram poucos litros para derramar", comemora Figueira.
O produtor recebeu ainda ações de restauração em 1,77 hectare e conservação de 0,74 hectare de vegetação nativa. As intervenções incluíram ampliação de piquetes, instalação de bebedouros e plantio de mudas. Atualmente, mesmo fora do auge da lactação, a média se mantém em 550 litros diários - volume ainda cerca de 103% superior ao registrado antes das intervenções.
O aprendizado que mudou tudo
Para Figueira, o conhecimento técnico foi tão importante quanto os recursos financeiros. "Eu não conhecia as técnicas de manejo de pastagem. Achava que água para o gado era só no mangueiro ou no rio. Com orientação, colocamos água em todos os piquetes e organizamos o sistema. Isso mudou tudo", revela o produtor.
O apoio do mecanismo de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) desenvolvido pelo Governo de São Paulo trouxe a segurança financeira necessária para novos investimentos. "Antes eu dependia só da produção para fazer qualquer melhoria. Com o PSA, consegui investir em irrigação e melhorar as nascentes. A água era pouca e hoje a gente vê diferença", explica Figueira. O investimento previsto no Sítio Esperança é de R$ 70,4 mil, com R$ 20,4 mil já executados.
Transformando pastagem em agrofloresta
Em São Luiz do Paraitinga, outra história de transformação ganha forma. Leandro Mantesso, 51 anos, adquiriu o Sítio Raízes I há quatro anos com um objetivo claro: transformar a antiga área de pastagem em um modelo de restauração produtiva. No âmbito do Projeto Vale + Verde, Mantesso converteu 18,23 hectares de pastagem degradada em Sistema Agroflorestal (SAF).
"Eu comprei a propriedade com o objetivo de fazer uma restauração produtiva, uma agrofloresta mesmo. A diferença é muito nítida. Quando chove forte, na área de pasto a água escoa superficialmente. Já no SAF, ela infiltra no solo. A vida volta com mais intensidade, aparecem mais abelhas, insetos e aves", descreve Mantesso, que já recebeu R$ 20,3 mil em PSA para a execução do SAF.
O produtor iniciou há três anos a implantação de um projeto piloto de agrofloresta em cinco hectares, com foco na produção de café, além de espécies frutíferas e madeireiras. No ano passado, outros cinco hectares começaram a ser convertidos, totalizando dez hectares em processo de transição do pasto para o SAF.
Uma política que dá resultados
As duas propriedades integram o Projeto Vale + Verde, desenvolvido no Vale do Paraíba com recursos do Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição (Fecop). O contrato foi firmado em abril de 2024 com o Consórcio Intermunicipal Três Rios e prevê investimento de R$ 11,4 milhões ao longo de três anos.
Até o momento, 110 contratos de Pagamento por Serviços Ambientais foram formalizados na região, com cerca de R$ 3 milhões executados - o equivalente a 26% do total previsto. As ações alcançam 1.315 hectares com conservação ou conversão de uso do solo, registrando aproximadamente 93% de realização das metas pactuadas.
"As ações que estamos acompanhando no Vale do Paraíba mostram que é possível unir conservação ambiental e fortalecimento da produção rural. Quando apoiamos o produtor com assistência técnica e incentivo financeiro, protegemos a água, recuperamos o solo e ainda ampliamos a renda no campo", afirma a secretária da Semil, Natália Resende.
Para Patrícia Locosque Ramos, diretora da DBB, o PSA é um instrumento estratégico de transição produtiva. "O PSA viabiliza a mudança do uso do solo para modelos mais sustentáveis e eficientes. Ele cria condições para que o produtor reorganize a propriedade, recupere áreas degradadas e aumente a produtividade com conservação", destaca.
No Vale do Paraíba, região historicamente marcada pela degradação da Mata Atlântica desde o ciclo do café, a política pública busca reverter passivos ambientais ao mesmo tempo em que fortalece a produção rural e a segurança hídrica. Os números impressionam: somadas, as ações do Refloresta SP abrangem cerca de 37,7 mil hectares em restauração no território paulista (2023 a 2026), sendo 14,7 mil hectares (39%) executados em 2025.
Os investimentos já somam aproximadamente R$ 45 milhões executados, com recursos do Fecop, da Arsesp e do Fundo Global do Meio Ambiente (GEF). Enquanto isso, produtores como Figueira e Mantesso seguem mostrando na prática que é possível produzir mais e melhor enquanto se cuida do meio ambiente - um exemplo que começa a se espalhar por todo o estado de São Paulo.

