Faltam apenas dois meses para Andreza Carolina Pracanico, 30 anos, realizar um sonho que parecia distante durante os quatro anos em que morou na Favela do Moinho, última comunidade da região central de São Paulo. A ex-moradora aguarda ansiosamente o dia em que receberá as chaves de seu apartamento próprio, um marco que representa muito mais que uma mudança de endereço: significa dignidade, segurança e um futuro melhor para sua filha.
Andreza integra um grupo de 850 famílias inscritas no programa de reassentamento do Governo de São Paulo, que completa um ano em abril. A iniciativa tem como objetivo acabar com a favela na região central, garantindo moradia digna às famílias enquanto requalifica o bairro. Atualmente, ela aguarda a tão esperada mudança em um apartamento alugado, sustentado pelos R$ 1,2 mil de aluguel-social que recebe.
A trajetória de Andreza na Favela do Moinho começou por necessidade financeira. Há cerca de quatro anos, precisando trabalhar no centro e com uma bolsa de faculdade na região, ela encontrou na comunidade invadida uma opção de moradia acessível, embora insalubre. "A infraestrutura era bem complexa. Tivemos alguns incêndios e quando chovia a água chegava na altura da canela, além da proliferação de ratos e do barulho constante do trem", relembra, referindo-se à localização da favela entre duas linhas ferroviárias.
A virada em sua vida começou com a chegada dos agentes da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) no ano passado. "A aproximação do CDHU foi ótima. Todos muito bem educados, tudo muito organizado, conversaram com a gente, sanaram todas as dúvidas. Foi ótimo, uma oportunidade de ter um apartamento no meu nome, regulamentado, de deixar aquela situação na favela. Foi maravilhoso", afirma Andreza.
No feirão montado pela CDHU para os moradores da Favela do Moinho, Andreza escolheu um apartamento em construção no bairro que desejava: dois quartos, sala, cozinha e uma vaga de estacionamento, também no centro da cidade. O contrato garante que a unidade será entregue finalizada, com piso e pintura interna, pronta para morar. "Nos foi oferecido oportunidades de morar em vários bairros da cidade, mas nós escolhemos ficar aqui no centro. Aqui nós conseguimos resolver tudo a pé, desde mercado, escola, saúde, até mesmo pronto socorro, a menos de 1 km da minha casa", explica.
Enquanto aguarda o grande dia, Andreza e seu marido tentam controlar a ansiedade, contando os dias no calendário e fazendo planos. "Minha filha já escolheu o tema do seu quarto. Já estamos fazendo planos também para mobiliar nossa nova casa, faremos aos poucos", conta. Para ela, a nova moradia representa "outra vida, outra perspectiva. Saber que a minha filha vai ter um espaço saudável para brincar, vai ter um local seguro para ficar, é um paraíso".
Os anos na favela deixaram marcas profundas. Além das condições precárias de infraestrutura, a criminalidade era uma preocupação constante. "O crime organizado comandava quem entrava e saía. Não mexiam com moradores, mas tínhamos medo. Meu marido chegou a ser barrado, porque andava um pouco mais social. Queriam saber o que ele estava fazendo ali", relata. Sua estratégia para criar a filha de quatro anos no Moinho era paradoxal: tentar ficar o maior tempo possível longe de casa. "Eu fiz de tudo para que ela ficasse a maior parte do tempo longe dali. A gente ocupava a rotina dela e a nossa de forma que basicamente só vínhamos para dormir".
Agora, tudo isso faz parte de um passado que Andreza prefere esquecer. "Melhor deixar tudo isso para trás. Pra mim tá tudo perfeito agora!", declara, com a esperança renovada de que, em breve, poderá oferecer à sua família não apenas um teto, mas um verdadeiro lar.

