Delcy Eloína Rodríguez Gómez, de 56 anos, assumiu a presidência interina da Venezuela em um momento de tensão máxima. Formada em direito na Universidade Central da Venezuela (UCV), com pós-graduação em direito social na Universidade de Paris e mestrado em política social pela Universidade de Birkbeck, em Londres, ela representa o núcleo duro do chavismo e a continuidade do projeto bolivariano.
A professora Carla Ferreira, do departamento de serviço social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em história política venezuelana, destaca que "Delcy sempre foi do núcleo duro do chavismo, sendo, até então, a segunda pessoa mais importante do governo depois de Maduro". E completa: "Ela tem uma trajetória muito sólida. Estamos diante de um quadro político e teórico do mais alto gabarito".
Nascida em Caracas em uma família de revolucionários socialistas, Delcy carrega uma história marcada pela violência política. Seu pai, Jorge Antonio Rodríguez, militante marxista da extinta Liga Socialista, foi torturado e assassinado em 1976 pela Direção de Serviços de Inteligência Policial (Disip), polícia política do regime de Punto Fijo. "Ela é filha de uma tradição revolucionária na Venezuela. Isso é algo muito importante, muito formativo", analisa Carla Ferreira.
A trajetória política de Delcy se entrelaça com a história recente da Venezuela. No início do primeiro governo de Hugo Chávez, ocupou cargos ligados à presidência, incluindo chefe de gabinete em 2006. Retomou protagonismo em 2013 como ministra da comunicação e informação no primeiro governo Nicolás Maduro. Entre 2014 e 2017, comandou o Ministério das Relações Exteriores, articulando a saída da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Em 2017 e 2018, presidiu a Assembleia Nacional Constitucional (ANC), instituição criada após impasse entre o governo Maduro e a Assembleia Nacional controlada pela oposição. Em junho de 2018, Maduro a escolheu como vice-presidente - diferente do Brasil, onde vice é eleito em chapa, na Venezuela o cargo é de indicação presidencial.
Além da vice-presidência, Delcy acumulava os cargos de ministra da economia e presidente da PDVSA, a estatal de petróleo venezuelana. Assumiu a principal empresa do país em 2024 após prisões na diretoria por acusações de corrupção.
A família Rodríguez tem peso político significativo. Seu irmão, Jorge Rodríguez, é presidente da Assembleia Nacional e ex-vice-presidente, considerado um dos políticos mais influentes do chavismo. "Eles passaram pelos maiores embates e desafios que a Venezuela enfrentou nos últimos 25 anos", observa Carla Ferreira.
O sequestro de Maduro colocou Delcy no centro de uma crise geopolítica. Imediatamente após assumir, recebeu ameaças do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, que exigiu acesso total ao petróleo venezuelano: "Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse Trump. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta.
Em pronunciamento à nação, Delcy foi enfática: "Se há algo que o povo venezuelano e este país têm absolutamente certeza, é que jamais seremos escravos, jamais seremos colônia de qualquer império". No entanto, Trump afirmou que ela teria aceitado demandas da Casa Branca: "Ela está essencialmente disposta a fazer o que achamos necessário".
Para Carla Ferreira, a hipótese de submissão aos EUA é estratégia de desinformação: "Provavelmente, a Delcy não vai atender aos desejos do Trump. Vai atender as demandas como o Maduro já tentou atender [...] O problema é que o governo Trump quer tudo". A especialista avalia que o discurso de cooperação é necessário frente à superioridade militar norte-americana: "Nenhum país do mundo pode fazer frente militar aos EUA. Não é possível a Venezuela continuar com o discurso de enfrentamento".
As forças armadas venezuelanas já reconheceram Delcy como presidente interina. Enquanto isso, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva manteve conversas com a nova mandatária, indicando continuidade no diálogo regional.
Delcy Rodríguez assume o poder em um contexto de embargo financeiro e comercial que dificulta o comércio externo venezuelano, sanções dos EUA e União Europeia (UE), e pressão interna. Sua formação acadêmica internacional e trajetória política sólida serão testadas na condução de um país em crise profunda, onde a herança revolucionária familiar se encontra com as demandas pragmáticas da governança.

