A exposição Debret em Questão – Olhares Contemporâneos, em cartaz no Museu do Ipiranga da USP até maio de 2026, propõe um diálogo entre as gravuras originais do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e obras de 20 artistas contemporâneos. A mostra, com entrada gratuita, exibe 35 gravuras emprestadas pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, pelo Instituto Itaú Cultural e pelo Instituto Moreira Salles, ao lado de releituras em diversos suportes, como pintura, fotografia, instalação, colagem digital e vídeo.
Debret morou no Brasil entre 1816 e 1831, período de transição da Colônia para o Império, e registrou em suas obras a cultura escravocrata local. A curadora Gabriela Longman destaca que o artista "levou uma vida dupla no Brasil", atuando como pintor da corte enquanto também desenhava o cotidiano das ruas do Rio de Janeiro. Suas observações sociais foram reunidas no livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, lançado em 1834 após seu retorno à França, que contém 152 gravuras baseadas em cerca de 800 desenhos e aquarelas.
O livro de Debret foi recusado pela Biblioteca Imperial brasileira porque a retratação do regime escravocrata violento não condizia com a imagem que o Império queria difundir. Na França, também foi um fracasso, pois contrariava o imaginário europeu de um paraíso tropical idealizado. Foi apenas na década de 1940 que a obra foi traduzida e publicada no Brasil, tornando-se referência visual do período nos livros didáticos a partir dos anos 1950.
A exposição é um desdobramento do livro Rever Debret, do sociólogo francês Jacques Leenhardt, publicado em 2023 pela Editora 34. Leenhardt, que também é curador da mostra, pesquisa a produção de Debret e dos contemporâneos que trabalham com releituras, explorando a relação entre imagens do passado e atuais. A seleção de artistas inclui representantes de todas as regiões do Brasil e três estrangeiros, transmitindo a diversidade típica da arte contemporânea.
Entre as obras contemporâneas, destaca-se a série Atualizações Traumáticas de Debret, da artista maranhense Gê Viana. Através de colagens e manipulação digital, Viana transforma imagens de sofrimento e opressão em cenas de celebração, festa e abundância. Em Sentem para Jantar, releitura de Um Jantar Brasileiro de Debret, a artista coloca uma família negra sentada à mesa, em contraste com a cena original onde personagens negros escravizados serviam aos brancos.
Outra releitura impactante é Levantamento do Mastro. Festa do Divino Espírito Santo, também de Gê Viana, baseada na gravura Aplicação do Castigo de Açoite de Debret. A artista coloriu a imagem, substituiu o homem preso no tronco por um mastro vivo com frutas e inseriu personagens negros em clima festivo, transformando um retrato de violência em celebração.
O artista Denilson Baniwa, natural do Amazonas, redesenha o Brasil visto por Debret sob uma perspectiva indígena, inserindo elementos tecnológicos como símbolos de wi-fi e monstros de videogame em suas obras. Heberth Sobral, mineiro, incorpora bonecos Playmobil em cenas de Debret, enquanto Rosana Paulino investiga as marcas deixadas pela escravidão, especialmente na condição das mulheres negras.
Jaime Lauriano, paulistano, apresenta a série Justiça e Barbárie, onde aplica fotografias atuais de violência contra homens negros em superfícies revestidas por fitas adesivas, nomeando-as com títulos das gravuras de Debret para provocar uma reflexão sobre a continuidade histórica da violência.
A exposição também inclui um espaço dedicado à arte-educação, com mesas escolares, quebra-cabeças e jogos de memória que utilizam reproduções das obras. Há ainda reproduções em relevo para acesso tátil, todas com descrição em braile, e uma seção com fotos do desfile de carnaval da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro em 1959, que teve Debret como tema.
Para Longman, a mostra é "um convite a olhar as imagens com calma", reconhecendo que estão sujeitas a leituras que se modificam com o tempo. Debret em Questão integra a Temporada França-Brasil 2025, que celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Antes de chegar ao Museu do Ipiranga, a exposição foi apresentada em versão reduzida na Maison de l'Amérique Latine, em Paris, onde Debret é pouco conhecido.
A exposição fica em cartaz até 17 de maio de 2026, de terça a domingo, das 10h às 17h, no Parque da Independência, no Ipiranga, em São Paulo, com entrada gratuita.

