O que começou como uma rodada promissora de negociações sobre o programa nuclear iraniano terminou, em apenas 48 horas, em uma ofensiva militar que deixou centenas de mortos e feridos. O acompanhamento das redes sociais do mediador oficial das conversas, o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr AlBusaidi, revela uma reviravolta dramática nas tratativas entre os Estados Unidos e o Irã.
Os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel a cidades iranianas neste sábado (28) acontecem em meio a um processo de negociação que parecia ganhar tração. Representantes do presidente americano, Donald Trump, e do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, vinham mantendo encontros com mediação de Omã, país que faz fronteira com o Irã e controla o estratégico Estreito de Ormuz.
Do otimismo à consternação nas redes sociais
Pelo perfil no X (antigo Twitter), Badr AlBusaidi documentou a rápida transformação do cenário. Na quinta-feira (26), ele anunciou satisfeito que uma rodada de conversas aconteceria em Genebra, na Suíça, "com um impulso positivo para ir além e buscar a finalização do acordo". No mesmo dia, declarou que as negociações terminaram com "progresso significativo".
Na sexta-feira (27), o tom continuava otimista. O ministro publicou foto de encontro com o vice-presidente americano, J.D. Vance, escrevendo que ambos compartilharam detalhes da negociação e o progresso alcançado. "Sou grato pelo engajamento deles e espero avanços adicionais e decisivos nos próximos dias. A paz está ao nosso alcance", concluiu.
Neste sábado (28), porém, o cenário mudou radicalmente. Dois dias depois de falar em "progresso significativo" e um dia após declarar que a paz estava "ao alcance", AlBusaidi usou a rede social para expressar "consternação". "As negociações ativas e sérias foram mais uma vez prejudicadas. Nem os interesses dos Estados Unidos nem a causa da paz global são bem atendidos por isso", escreveu.
O apelo do mediador e o saldo trágico
O ministro de Omã fez um apelo direto: "Peço aos Estados Unidos que não se deixem arrastar ainda mais. Esta não é a sua guerra". E acrescentou, em tom de lamento: "Rezo pelos inocentes que irão sofrer".
O sofrimento já tinha começado. Segundo o Crescente Vermelho, organização civil humanitária que atua no Oriente Médio, a ofensiva militar deixou ao menos 201 pessoas mortas e 747 feridas. Entre as vítimas estão pelo menos 85 alunas mortas no bombardeio a uma escola para meninas no sul do Irã.
O histórico do acordo nuclear
Há anos, os países discutem os limites do programa nuclear iraniano. Enquanto o Irã sustenta que é para fins pacíficos, os Estados Unidos e alguns aliados, mais notadamente Israel, acusam fins militares. O nível de enriquecimento de urânio pode determinar se um programa nuclear é pacífico ou não.
Em 2015, o então presidente americano Barack Obama, do Partido Democrata, firmou um acordo com os iranianos, que aceitariam a limitação da capacidade de enriquecimento de urânio em troca de alívio de sanções econômicas. Donald Trump, do Partido Republicano, adversário de Obama, assumiu o primeiro mandato como presidente em 2017 e, já no segundo ano, 2018, retirou o país do acordo com o Irã.
Mas, em 2025, primeiro ano do segundo mandato, Donald Trump voltou a sinalizar ao Irã a necessidade de um novo acordo. Em meio à pressão e ameaça de guerra, o país do Oriente Médio voltou à mesa de negociação, que tinha justamente Badr AlBusaidi como mediador externo.
As repercussões internacionais
O Conselho de Segurança da ONU fez reunião de emergência após os ataques ao Irã. Enquanto isso, Israel divulgou que cerca de 200 caças atingiram mais de 500 alvos no território iraniano.
O Estreito de Ormuz, controlado por Omã, recebeu holofotes da indústria do petróleo após os ataques. Por ali passam cerca de 20% da produção mundial de petróleo, e analistas temem que o Irã possa bloquear o estreito em retaliação, o que levaria à escalada do preço da matéria-prima no mercado internacional.
As declarações do mediador nas redes sociais mostram como, em menos de dois dias, a esperança de um acordo que poderia "apoiar os negociadores para concluir o acordo" e garantir "estoque zero" de armas nucleares com "verificação abrangente" deu lugar a uma realidade de bombardeios, mortes e um futuro incerto para as relações entre os países.

