Em um município onde o asfalto encontra o fim do mapa e o rio Paraná desenha a fronteira, uma história de superação ganha contornos de conquista coletiva. Querência do Norte, a cidade mais distante de Curitiba por rodovia – cerca de 630 quilômetros de estrada –, vê uma de suas filhas cruzar um caminho ainda mais desafiador: o acesso ao ensino superior. Kamila da Silva Santos, 18 anos, moradora da zona rural em uma comunidade ribeirinha, foi aprovada no curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) através do programa Aprova Paraná Universidades.

A rotina de Kamila, até então, era marcada por números que contam uma realidade comum a muitos jovens do interior profundo: mais de duas horas diárias de transporte escolar para percorrer os 30 quilômetros de estrada de terra que separam sua casa do Colégio Estadual Humberto de Campos, onde estudou por sete anos. Filha de trabalhadores rurais, ela nunca frequentou outra rede de ensino que não a pública. "Sempre estudei em escola pública, enfrentei limitações de recursos, longas distâncias e dificuldades de acesso, especialmente por viver em uma região rural", relata a jovem. "Mesmo assim, os professores e a estrutura da rede pública foram essenciais para minha formação acadêmica e pessoal, despertando em mim o interesse pelos estudos e a vontade de continuar me qualificando".

Para ela, a conquista da vaga – em um programa que ofertou 3.757 vagas em 440 cursos superiores nas sete universidades estaduais do Paraná – não é apenas individual. É o resultado de uma rede de apoio que vai da família à comunidade escolar. "Sem o apoio dos meus pais, que nunca me deixaram abandonar a escola, do motorista do ônibus, que me levava diariamente, das 'tias' da escola, que sempre deixavam o ambiente mais confortável para estudar e dos profissionais (não só os professores), não seria possível essa conquista. Ela transformou minha realidade", afirma Kamila.

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A mãe, Gilda Santos, emociona-se ao falar da trajetória da filha. "Estou muito feliz pela aprovação dela. Ela teve dificuldade por morar em um sítio e de se locomover por estradas de terra, mas ela teve muita força de vontade, foi sempre estudiosa", comenta, destacando a dimensão social da vitória. Em uma região onde o acesso à educação superior muitas vezes parece um sonho distante, a aprovação de Kamila ecoa como um testemunho de possibilidade.

O programa que abriu essa porta, o Aprova Paraná, é uma iniciativa inclusiva da Secretaria da Educação do Paraná (Seed-PR) que utiliza a nota da Prova Paraná Mais e reserva 20% das vagas nas universidades estaduais – UEL, UEM, UEPG, UENP, Unespar, Unioeste e Unicentro – para alunos oriundos de escolas públicas. O secretário de Estado da Educação, Roni Miranda, reforça o caráter transformador da política. "Este programa é a prova de que origem não determina destino. Quando o Estado garante escola pública de qualidade e acesso ao ensino superior, abre portas onde antes havia distância e dificuldade. Estamos transformando esforço em oportunidade concreta para milhares de jovens do nosso interior. Inclusão, para nós, é dar condições reais para que cada estudante alcance o seu potencial".

Superada a etapa da aprovação, Kamila agora aguarda as próximas fases do processo. De acordo com o cronograma da Seed-PR, os dados dos candidatos aprovados serão encaminhados às universidades para o processamento final das matrículas. Enquanto isso, a futura pedagoga já projeta o impacto que sua formação poderá ter. "Ela transformou minha realidade", repete, agora com os olhos voltados para o futuro, onde pretende, ela mesma, fazer a diferença na vida de outros estudantes. De Querência do Norte para o mundo acadêmico, sua jornada ilustra como políticas públicas de acesso podem encurtar distâncias geográficas e sociais, escrevendo novos capítulos para a educação no Paraná.