Você assinou a previdência privada, trabalhou feito um condenado e, entre uma manobra ética e aquele "jeitinho brasileiro", ergueu seu império de papel. Deu sorte: sua esposa não o golpeou pelas costas com uma medida protetiva nem levou metade do espólio no divórcio. Você sobreviveu à selva e arrastou-se até a velhice. Agora, diante do espelho, vem a hora da verdade: você educou seus filhos para serem seres humanos ou apenas herdeiros ansiosos?
Enquanto o patrimônio crescia, o tempo escorria. Domingo a domingo, três maços de "Satanás Lights", a pressão arterial e o colesterol desafiando as leis da gravidade. O corpo cobrou a conta: um derrame ou infarto o jogou em uma cama, onde sua dignidade agora depende da caridade alheia para limpar o que você não controla mais.
Seu único enfermeiro fiel pode ser um gato de rua, que veio andando pelo muro, entrou pela janela e não pediu seu extrato bancário para se aninhar no seu peito. Ou, se você ainda for do tipo que "não gosta de bichos", restará a frieza de um cuidador pago por hora, contando os minutos para o fim do turno.
Será que agora, no silêncio do quarto, você entende por que deveria ter dado um bicho de estimação aos seus filhos? Animais ensinam o que o dinheiro mascara: que a vida exige cuidado, rotina e empatia com o cocô, o xixi e a dor do outro. Olhe para o lado: valeu mesmo a pena trocar esse aprendizado por aquele videogame de última geração, onde seus filhos aprenderam que a vida se resume a trucidar inimigos e acumular pontos em uma tela vazia?
E você? O que tem cultivado hoje: conexões reais e ronrons ou apenas milhas no cartão e pontos em uma conta bancária?

