Há exatos 20 anos, na sexta-feira, 12 de maio de 2006, véspera do Dia das Mães, o estado de São Paulo vivia o início de uma das maiores crises de segurança pública de sua história. A transferência de 765 presos, incluindo Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, unidade de segurança máxima, desencadeou uma série de rebeliões em 74 presídios e uma onda de ataques nas ruas que ficou conhecida como Crimes de Maio.
O jornalista e professor Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, lembra que foi a chamada "megatransferência" que motivou a reação dos presos. "E foi essa megatransferência que fez os presos darem o salve para os ataques." A ofensiva começou com rebeliões e rapidamente se espalhou para as ruas, mirando viaturas, delegacias, prédios públicos e policiais.
O clima de terror foi relatado por Mônica Trindade Carneiro, que estava grávida na época. As contrações do parto começaram na madrugada de 17 de maio, e ela precisou sair na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, para conseguir um táxi. "A rua estava vazia, não tinha carro, não tinha gente", conta. O taxista, assustado, parou em uma base da Polícia Militar, e policiais nervosos cercaram o veículo com armas em punho. "Dava para ver no rosto deles que estavam com medo porque eles estavam sendo atacados." Ao final, o taxista a levou ao hospital, mas os dias seguintes foram de tensão. "Até o dia em que ela nasceu, foram realmente os dias mais tensos, realmente mais confusos."
Bruno Paes Manso, então jornalista policial, descreveu o impacto nos dias seguintes: "Era uma bomba que tinha caído em São Paulo. Todo mundo em choque, tentando entender o que tinha acontecido, porque já eram mais de 50 policiais mortos. Era uma coisa nunca vista." O estudo São Paulo sob Achaque, da Clínica de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard e da Justiça Global, aponta que a transferência não foi o único motivo. Corrupção policial, extorsões, falhas nas investigações e o descaso com o sistema penitenciário também contribuíram.
Após o Dia das Mães, o revide veio. Agentes do Estado e grupos de extermínio saíram às ruas. Boatos de toque de recolher levaram ao fechamento de supermercados, universidades e à paralisação do transporte público. "E aí começaram as execuções nas periferias. Foram mais de 500 mortes em nove dias, muitas com suspeita de execução", afirma Manso. "Muita gente fala que este foi o nosso 11 de setembro aqui em São Paulo."
O relatório Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em Maio de 2006, do Laboratório de Análises da Violência da Uerj, contabiliza 505 civis mortos e 59 agentes do Estado. Ao todo, entre 12 e 21 de maio, foram 564 mortos e 110 feridos. O documento ressalta: "Os Crimes de Maio foram marcados pela violência brutal do PCC, mas também foram uma demonstração do preço da corrupção, da fúria da violência policial e da falência do sistema prisional."
Para o defensor público Antonio José Maffezoli Leite, os ataques foram seguidos por revides de policiais militares e grupos de extermínio, muitas vezes encapuzados, com indícios de envolvimento de policiais. O advogado Gabriel de Carvalho Sampaio, da Conectas Direitos Humanos, classifica o episódio como um massacre: "Os Crimes de Maio foram um massacre, uma reação injustificável que vitimou mais de 500 pessoas. Foram mortes marcadas pela estratégia da execução sumária, de pessoas que não tiveram direito de defesa e foram mortas com tiros na cabeça e pelas costas."
O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) registrou, em 2006, que pelo menos 2.359 tiros foram disparados, atingindo 493 vítimas, numa média de 4,7 tiros por pessoa. Oito em cada dez vítimas tinham até 35 anos, 96% eram homens, mais da metade pretos e pardos, e apenas 6% possuíam antecedentes criminais. Um relatório da Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana aponta que 60% dos mortos foram baleados na cabeça, indicando execução sumária. "A maioria estava com a mão na cabeça ou de costas, muitas vezes já abaixada e rendida", detalha a pesquisadora Aline Lúcia de Rocco Gomes, da Unifesp.
O ouvidor das Polícias de São Paulo, Mauro Caseri, aponta falhas nas investigações: "95% dos casos em que os policiais são autores do disparo, os inquéritos são arquivados. E, desses 5% que são pronunciados, 95% são absolvidos." O relatório da Secretaria Nacional de Direitos Humanos revela que quase todos os inquéritos sobre mortes de civis foram arquivados a pedido do Ministério Público, enquanto as mortes de policiais foram esclarecidas, demonstrando "uma investigação seletiva".
O fim dos ataques coincidiu com um encontro secreto entre o governo paulista e Marcola, conforme o relatório São Paulo sob Achaque. O então governador Claudio Lembo negou acordo, mas admitiu que autorizou a advogada de Marcola a se encontrar com ele, o que teria ajudado a encerrar a crise. Desde então, o PCC mudou de estratégia. "Eles perceberam que não deviam bater de frente com o sistema. Eles tinham que comprar o sistema", explica Manso. A facção passou a investir no tráfico internacional de drogas, fundos de investimento, postos de gasolina, bancos e política.
Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) informou que 15 agentes penitenciários foram mortos nos ataques e destacou a criação da Polícia Penal em 2025, que eliminou rebeliões. Também mencionou a expansão para 180 presídios e a automação das unidades. Já a Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que as mortes foram investigadas e mais de 50 inquéritos foram enviados ao Judiciário, mas não quantificou os agentes mortos. Afirma não compactuar com excessos e que investe em equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores e armas de incapacitação neuromuscular, com mais de R$ 27 milhões aplicados.

