Quase três anos após o fim oficial da pandemia de covid-19, uma condição crônica segue desafiando pacientes, médicos e cientistas em todo o mundo: a covid longa. Estimativas conservadoras apontam que entre 80 milhões e 400 milhões de pessoas no planeta convivem com essa síndrome, caracterizada por mais de 200 sintomas que persistem ou surgem após a infecção aguda pelo SARS-CoV-2.
Entre os principais problemas relatados estão fadiga extrema, falta de ar e, especialmente, questões neuropsiquiátricas como disfunção cognitiva, distúrbios do sono, depressão e perda de memória. Esses sintomas impactam diretamente a qualidade de vida, dificultando desde tarefas simples do dia a dia até o desempenho no trabalho.
O primeiro artigo de revisão dedicado especificamente às manifestações neurológicas, psicológicas e psiquiátricas da covid-19, publicado pela prestigiada revista Nature Reviews Disease Primers, traz uma análise abrangente sobre essa condição. Desenvolvido por um painel internacional de 14 especialistas, o trabalho aborda epidemiologia, mecanismos biológicos, diagnóstico, abordagens terapêuticas e os desafios científicos que ainda persistem.
Entre os autores está a única brasileira do grupo: a professora e neurologista Clarissa Yasuda, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Brainn), ela coordena desde 2020 uma série de estudos sobre covid longa no país.
"Essa doença é nova e pouco conhecida. Tem muita gente estudando e tentando entendê-la não só pelos casos atuais, mas também porque a humanidade é suscetível a outros vírus que podem causar problemas da magnitude dessa pandemia. Precisamos aprender com ela e investigar de maneira efetiva e rápida", afirma Yasuda em entrevista à Agência Fapesp.
Os mecanismos fisiopatológicos da covid longa são complexos e múltiplos. Entre eles estão a persistência viral do SARS-CoV-2 no organismo, reativação de herpesvírus devido ao estresse imunológico, ativação imune crônica, desregulação do sistema imunológico, desequilíbrio da microbiota intestinal, anormalidades de coagulação e dano endotelial. No cérebro, pesquisas mostram alterações estruturais e conectividade funcional anormal.
Os pesquisadores são enfáticos ao afirmar que a única prevenção à covid longa até agora é evitar a infecção por SARS-CoV-2. "O importante é tomar as vacinas e evitar reinfecções. Essa é outra mensagem do artigo", reforça Yasuda. O diagnóstico, por enquanto, baseia-se na avaliação clínica, exigindo histórico recente de contaminação pelo vírus e sintomas persistentes por pelo menos três meses, além da exclusão de outras condições médicas.
No Brasil, a situação preocupa. Embora os números de casos de covid-19 venham caindo ano a ano, ainda permanecem em patamar elevado. Em 2025, segundo o Ministério da Saúde, foram notificados cerca de 432,4 mil casos, ante 984 mil no ano anterior. Entre janeiro e a segunda semana de fevereiro deste ano, já foram registrados aproximadamente 25.200 casos.
O impacto econômico da covid longa é significativo. Um estudo publicado na Nature Medicine em 2024 estimou que a condição resultou em mais de 803 milhões de horas de trabalho perdidas somente no Brasil naquele ano, com custo potencial superior a US$ 11 bilhões. Isso equivale a cerca de 400 mil trabalhadores em tempo integral fora do mercado por um ano inteiro. Globalmente, o impacto econômico pode chegar a aproximadamente US$ 1 trilhão anualmente - cerca de 1% da economia mundial.
"Pode haver perda de emprego e renda, além de dificuldades na volta às atividades por falta de apoio dos sistemas de bem-estar social", destacam os autores. As pessoas afetadas passam por períodos de "altos e baixos", "colapsos", "depressões" e "vales", sentindo-se incapazes de manter o mesmo nível de atividade anterior.
A própria professora Yasuda vivenciou essas dificuldades na pele. Infectada em agosto de 2020, ela teve sintomas leves inicialmente, mas cerca de um mês depois desenvolveu disfunção cognitiva que prejudicou suas tarefas acadêmicas. Em artigo publicado na biblioteca digital Scielo Brasil em junho de 2022, intitulado "Quero meu cérebro de volta", ela relatou sua experiência pessoal. "À época, mostrei o esforço de recuperação e as estratégias para conviver com as restrições persistentes em termos de desempenho cognitivo. Depois de muito esforço e disciplina, melhorei", conta.
Também chamada de "condição pós-Covid-19", a covid longa foi incluída para acompanhamento no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2021, com atualização em 2023. Um boletim epidemiológico divulgado em 2025 estimou em 13,8 milhões o número de casos de "condições pós-Covid" no país, sendo a maioria do sexo feminino (8,58 milhões). A faixa etária mais atingida é a dos 30 aos 49 anos, com 6,2 milhões de brasileiros afetados.
Os pacientes enfrentam múltiplas barreiras além dos sintomas físicos. Os cientistas citam estigmas, discriminação, tratamento inadequado e culpabilização, com situações particularmente difíceis para indivíduos de minorias étnicas. Para crianças e adolescentes, as implicações podem ser sérias em interações sociais e educacionais.
Por isso, os autores sugerem que o acompanhamento seja realizado por equipes multidisciplinares, com profissionais de várias áreas da saúde. Para ensaios clínicos futuros, recomendam o recrutamento de uma população diversificada e representativa, considerando as perspectivas das pessoas com covid longa e os determinantes sociais e de saúde.
"Ser convidada para participar dessa revisão foi muito importante e um reconhecimento internacional ao trabalho que estamos desenvolvendo no Cepid Brainn", comemora Yasuda, que também conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Seu grupo atualmente trabalha em uma pesquisa longitudinal para compreender as mudanças provocadas pela doença no cérebro.
Os pesquisadores destacam que, para avançar significativamente na compreensão da covid longa, ainda são necessários mais estudos científicos para padronizar definições e nomenclatura, além de um número maior de ensaios clínicos com potenciais terapias. Enquanto soluções definitivas não surgem, a prevenção através da vacinação e do cuidado para evitar reinfecções segue sendo a principal recomendação.

