Um grupo de estudantes do Colégio Estadual Cívico-Militar Presidente Kennedy, em Rolândia, no norte do Paraná, está provando que a ciência feita na escola pode ter impacto real na comunidade. O clube de ciências Discovery Kennedy's, fundado em 2024 através da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, transformou a curiosidade sobre o lago San Fernando - formado a partir de uma antiga olaria - em um projeto que chamou a atenção das autoridades municipais e resultou em um plano de rearborização para melhorar a qualidade da água e a flora local.

A iniciativa partiu da professora de Biologia e Ciências, Eglaia Carvalho Cheron, com apoio do professor de Matemática, Carlos Marcelo Campaner. "Tivemos que fazer o letramento científico dos alunos para eles entenderem que tem a parte teórica de verificar a referência bibliográfica, levantar dados e tudo mais e sentar e escrever. Após isso, partimos para a prática, onde eles ficam muito encantados, porque a gente foi até o lago, levou os testes de análise de qualidade da água, eles viram temperatura, pH. Eles eram os cientistas que estavam fazendo este levantamento", explica Eglaia.

Em um ano de trabalho, os alunos mapearam a flora e fauna ao redor do lago e realizaram análises que evidenciaram problemas ambientais. O estudo identificou 377 espécies de eucalipto, uma planta exótica que, segundo a professora, "não serve, é como um deserto verde para a região". As análises também detectaram a presença de nitrogênio na água, indicando desequilíbrio no ecossistema.

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Os resultados foram tão impactantes que, em outubro de 2025, o grupo recebeu uma menção honrosa na Câmara Municipal de Rolândia. Mais importante: o trabalho científico dos estudantes levou a uma parceria com a prefeitura. "Apresentamos isso em uma sessão com o prefeito, os alunos foram lá explicaram que encontramos nitrogênio na água e outras questões. A partir do estudo científico que os meus alunos fizeram, a prefeitura vai fazer o replanejamento de espécies arbóreas lá no lago", conta Eglaia com orgulho.

Para a diretora do colégio, Gessiely Aparecida Sperandio, a iniciativa representa mais do que uma oportunidade pedagógica. "O Clube de Ciências representa superação, protagonismo juvenil e a possibilidade de alçar voos cada vez mais altos, ampliando horizontes e perspectivas. Sua presença no colégio é sinônimo de pertencimento, fortalece o engajamento e promove boas práticas que ultrapassam os muros da escola, contribuindo significativamente para a formação cidadã e para a sociedade como um todo", afirma.

O reconhecimento ao trabalho do Discovery Kennedy's não parou na prefeitura. Em 2025, o clube participou da Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (FECCI) com quatro trabalhos selecionados sobre as análises realizadas no lago San Fernando e levou o prêmio Nosso Clube é Show. Para o aluno Luiz Miguel Mello da Silva, de 14 anos, do 9º ano do Ensino Fundamental, a experiência foi transformadora. "Era o meu sonho conhecer Curitiba e ir para a Feira de Ciências e eu realizei esse sonho com o Clube de Ciências Discovery Kennedy's do nosso colégio. Amei muito essa experiência, gostei de tudo que tinha lá na FECCI, os trabalhos das outras pessoas, achei muito interessante", conta.

O projeto também ganhou dois prêmios na Feira de Inovação, Tecnologia e Ciência (FITEC) - um por rigor metodológico e outro de relevância ambiental na área de biologia. Essas premiações renderam credenciamento para que os alunos participem da Feira Nordestina de Ciências e Tecnologia (FENECIT) em Recife (PE). A escola agora estuda a viabilidade da viagem para o grupo de estudantes.

O grupo ainda esteve presente na XIV Feira de Inovação das Ciências e Engenharias (FIciências 2025) em Foz do Iguaçu, uma feira internacional voltada para educação básica conhecida pelo rigor na seleção de trabalhos.

Além dos estudos no lago San Fernando, o clube desenvolve outros projetos científicos. Um deles é o cultivo de abelhas Jataí, ideia do estudante José Fernando Silva Mariquito, da 3ª série do Ensino Médio, que notou um enxame se instalando em sua casa. "O projeto consiste em unir preservação com educação, se essas são espécimes que estão perto da extinção, por que não colocar uma colmeia delas nas escolas? Já que elas não oferecem tanto risco, por não possuírem ferrão, e sem contar que seria uma forma de auxiliar a preservação tanto das abelhas, quanto de algumas espécies nativas da flora", explica o jovem pesquisador.

Outras atividades do clube incluem a construção de uma Mão Biônica com princípios de robótica, estudos sobre eficiência energética e experimentos com magnetismo. "Os próprios alunos nos trazem sugestões de curiosidades que eles possuem, após o letramento científico realizado com o projeto do lago, mudou a perspectiva desses alunos e eles se desenvolveram respeitando as diferenças um do outro. Tem criança que nunca nem dormiu fora de casa e que foi pra feira de ciências em Foz do Iguaçu e Curitiba, estudantes com restrição alimentar e nas viagens experimentaram coisas novas, desenvolvimentos que vão além do estudo", finaliza a professora Eglaia.

O Discovery Kennedy's mostra como a educação científica pode formar não apenas estudantes, mas cidadãos conscientes e ativos em suas comunidades - um exemplo que ultrapassa os muros da escola e inspira mudanças reais no ambiente onde vivem.