O centro da cidade de São Paulo, que celebra 472 anos neste domingo (25), vive um momento histórico de transformação. Após décadas marcadas pela degradação urbana, violência e exclusão social, a região experimenta um processo de requalificação impulsionado por um conjunto articulado de políticas públicas do Governo de São Paulo. O marco mais visível dessa mudança é o fim da Cracolândia, a principal cena aberta de uso de drogas do país, que completou oito meses de desarticulação em janeiro.

Os números revelam a dimensão da operação: desde 2023, foram presas mais de 21,6 mil pessoas, apreendidas 13,4 toneladas de drogas, retiradas 682 armas de circulação e recuperados cerca de 2 mil veículos na região central. O resultado prático aparece nas estatísticas de segurança: entre janeiro e novembro de 2025, os roubos e furtos caíram 39,6% na comparação com o mesmo período de 2022. Quase 20 mil ocorrências deixaram de ser registradas apenas nos distritos policiais diretamente ligados às antigas cenas de uso.

"Foi preciso pensar diferente e fazer diferente para chegar aonde ninguém chegou, para ter os resultados que nenhuma outra gestão teve", afirmou o vice-governador Felício Ramuth, que coordenou as ações relacionadas à Cracolândia desde 2023. A estratégia, no entanto, vai muito além do combate ao tráfico e à criminalidade.

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Paralelamente às ações de segurança, o Governo de São Paulo estruturou a Linha de Cuidados Integral a Adultos com Necessidades Relacionadas ao Uso de Crack, Álcool e outras Drogas. A iniciativa representou uma mudança de paradigma no tratamento da dependência química. A oferta de leitos exclusivos para desintoxicação saltou de 140 para 728, foram criados serviços de acolhimento terapêutico e fortalecidas ações preventivas.

No início da gestão, cerca de 3 mil pessoas frequentavam as cenas abertas de uso. Esse número caiu progressivamente até a desarticulação do fluxo concentrado, em 10 de maio de 2025. Foram criados 14 complexos de Casas Terapêuticas, totalizando 56 unidades, e implantados 11 Espaços Prevenir, voltados exclusivamente às ações preventivas. Com a implantação do Hub de Cuidados em Crack e outras drogas, consolidou-se uma nova abordagem com serviços integrados em todas as etapas da linha de cuidados.

Desde sua implantação, foram realizados 37,9 mil atendimentos e 32,9 mil encaminhamentos para hospitais especializados e comunidades terapêuticas. A Agência SP ouviu um dos beneficiados pelas ações de acolhimento, que não pode ser identificado. Ele viveu 17 anos em situação de rua e na cena aberta de uso e relata que chegou a acreditar que jamais conseguiria abandonar as drogas. Próximo de concluir o tratamento, celebra mudanças profundas: retomou o contato com a família, voltou a estudar e conquistou um emprego com registro.

"Viver nas ruas não é fácil. Hoje eu tenho a minha casa, conquistei minha autonomia, tudo através do meu processo e foco e do acolhimento adequado", afirma. "Quando cheguei para ser acolhido, eu só tinha a roupa do corpo. Mesmo assim, fui recebido com amor, com paciência e com regras que me ajudaram a reconstruir minha vida."

A política de segurança pública no centro também foi fortalecida com a incorporação de mais de 400 policiais militares ao policiamento da região, ampliação da Atividade Delegada, entrega de duas novas sedes policiais, oito bases comunitárias e a aquisição de 80 motocicletas. Atualmente, mais de 2 mil policiais atuam diariamente no centro da capital.

A integração tecnológica avançou com a conexão de câmeras do programa Muralha Paulista, do Governo do Estado, e do Smart Sampa, da Prefeitura, a 50 motocicletas da Polícia Militar e 50 da Guarda Civil Metropolitana, ampliando o monitoramento em tempo real. Desde 2023, operações integradas também resultaram na apreensão de 34 mil armas brancas e objetos cortantes, por meio da Operação Corte Zero.

As ações estruturantes do Governo de São Paulo incluem ainda políticas de habitação e requalificação urbana no centro da capital. Um dos principais exemplos é o reassentamento das famílias da Favela do Moinho, nos Campos Elíseos. Até 22 de janeiro deste ano, 838 mudanças já haviam sido realizadas, sendo que 776 famílias já selecionaram suas unidades de destino. Destas, 237 já estão em moradias definitivas.

O reassentamento integra o Casa Paulista, maior programa habitacional da história do Estado. O diagnóstico anterior apontava problemas estruturais graves, como presença de ratos, relatos de tuberculose, uso de materiais inflamáveis, ligações elétricas clandestinas e apenas uma via de entrada e saída, elevando significativamente o risco de incêndios e acidentes.

Para atender todas as famílias, a CDHU mapeou cerca de 1,5 mil unidades habitacionais prontas ou em construção, mais de mil delas na região central, além da possibilidade de livre escolha de imóveis em qualquer município do Estado, dentro dos parâmetros do programa. Os imóveis são gratuitos para famílias com renda mensal de até R$ 4,7 mil, conforme parceria com o Ministério das Cidades.

Entre as beneficiadas está Fernanda Tatiana Pereira da Silva, de 43 anos, que deixou a Favela do Moinho após cinco anos e passou a morar em um apartamento no Parque Peruche, na Zona Norte, com o filho e o gato de estimação. "Consegui meu apartamento com muita oração e luta. Estou contente porque vou sair do aluguel. Minha vida vai melhorar. Estou indo para o que é meu. É do jeito que eu pedi a Deus", afirmou, emocionada.

"Estamos falando de um verdadeiro resgate social", afirma o secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Marcelo Branco. "Essas famílias viviam em condições extremamente precárias, expostas a riscos diários. O reassentamento permite não apenas a requalificação urbana da área, mas, sobretudo, o desenvolvimento humano, garantindo dignidade, segurança e autonomia para quem viveu por décadas sem acesso à moradia adequada."

Outra iniciativa estratégica é a construção do Novo Centro Administrativo do Estado, nos Campos Elíseos. O complexo reunirá sete edifícios e dez torres, concentrando secretarias e órgãos estaduais, com espaço para cerca de 22 mil servidores. O projeto inclui equipamentos culturais e de convivência, como teatro, auditórios e salas multiuso, criando um espaço cívico no coração da cidade.

Estão previstos ainda o restauro de 17 imóveis tombados, a ampliação em mais de 40% das áreas verdes do Parque Princesa Isabel e a criação de 25 mil metros quadrados destinados a comércio e serviços, impulsionando o desenvolvimento urbano e a economia local. O leilão da Parceria Público-Privada (PPP) do Novo Centro Administrativo Campos Elíseos acontece no dia 26 de fevereiro.

O conjunto dessas ações - segurança pública integrada, políticas de saúde e acolhimento, programas habitacionais e investimento em infraestrutura urbana - está redesenhando o futuro do centro de São Paulo. Após anos de abandono e estigma, a região mais antiga da cidade recupera não apenas sua paisagem urbana, mas principalmente sua função social, abrindo caminho para um novo capítulo em seus 472 anos de história.