Quatro anos depois de abrirem as portas de sua casa para estudantes paranaenses no Canadá, os aposentados Glen e Crystal Durand cruzaram o oceano para viver a experiência inversa. A viagem de mais de 10 mil quilômetros os levou ao interior do Paraná, onde reencontraram jovens que um dia foram seus "filhos" temporários e conheceram de perto a cultura, a culinária e as paisagens que tanto ouviram falar durante os meses de convivência.
Em 2022, o casal de Hanna, uma pequena cidade na província de Alberta, no Canadá, recebeu em sua casa alunos do programa Ganhando o Mundo, iniciativa do Governo do Paraná que oferece intercâmbio estudantil para alunos da rede pública estadual. O relacionamento diário com os jovens despertou neles o desejo de um dia conhecer o Brasil. "Estávamos envolvidos em um projeto missionário religioso no Panamá, e sentimos que era o melhor momento para organizar uma visita às famílias dos estudantes no Brasil, já que estaríamos relativamente próximos", contou Crystal Durand, de 60 anos.
A viagem começou por Nova Tebas, no Vale do Ivaí, onde foram recebidos por Vanessa Stipp, hoje com 19 anos e estudante de Psicologia. Em 2022, Vanessa passou cinco meses hospedada na casa dos Durand enquanto cursava o Ensino Médio no Colégio Estadual Vinícius de Moraes. "Eu tive uma relação ótima com minha host family. Na casa, eram apenas a Crystal e o Glen, mas conheci todos os filhos e netos deles, assim como outros parentes. Foi muito bom retribuir um pouco do que eles me proporcionaram lá, apresentar a eles minha família e minha cultura. Me sinto sortuda por ter construído esse vínculo", celebrou a jovem.
Durante os três dias de hospedagem em Nova Tebas, os canadenses conheceram a leiteria da família de Vanessa, provaram frutas típicas como jabuticaba e se encantaram com a diversidade da música brasileira. Vanessa, que desenvolveu fluência em inglês durante o intercâmbio, atuou como tradutora entre sua família e os visitantes. "Foi um pouco desafiador no início, pois minha família no Brasil não fala inglês e os hosts não falam português, então eu fiz a maior parte da tradução", relatou.
O roteiro continuou em Novo Itacolomi, onde Diogo Bettin, hoje desenvolvedor freelancer de 20 anos, recebeu o casal. Diogo também participou do Ganhando o Mundo em 2022 e, embora tenha ficado hospedado com outra família no Canadá, passava tanto tempo na casa dos Durand que criou um vínculo forte com eles. "Minha experiência no intercâmbio foi incrível, conheci pessoas maravilhosas, experimentei muitas coisas diferentes e fiz diversos amigos. Isso me fez ganhar mais autonomia sobre minhas decisões e compreender cedo o peso das responsabilidades", lembrou.
Em Novo Itacolomi, Glen e Crystal experimentaram de tudo um pouco: churrasco, pastel, coxinha, brigadeiro, açaí e mandioca - esta última uma novidade absoluta, já que não é comum no Canadá. Também visitaram lagos, pescaram, fizeram trilhas e aprenderam a jogar pife, um jogo de cartas popular na região. "Eles comeram todo tipo de comida brasileira, tradicional e popular", destacou Diogo.
O casal ainda passou por Maringá e Cianorte, onde visitou a família de outro estudante intercambista, e finalizou a viagem em Foz do Iguaçu, onde conheceram o Parque Nacional do Iguaçu e as famosas Cataratas. Em todas as cidades, visitaram escolas locais e conversaram com estudantes sobre as diferenças entre os sistemas educacionais brasileiro e canadense. "Gostamos muito de ver a agricultura e as paisagens, uma vez que também viemos de comunidades rurais no Canadá. Foi muito agradável estar nas escolas onde o programa de intercâmbio começou", afirmou Crystal.
As famílias anfitriãs como os Durand são selecionadas através de um rigoroso processo coordenado pelo programa internacional parceiro do Ganhando o Mundo. "O objetivo principal é que o intercambista não seja tratado apenas como um hóspede, mas como um membro da família. Isso proporciona uma integração mais profunda com a cultura e o dia a dia do país anfitrião", explicou Marlon de Campos Mateus, coordenador do Ganhando o Mundo na Seed-PR.
Crystal Durand contou como foram escolhidos: "Fomos perguntados pela escola local se poderíamos recepcionar os intercambistas. Eu já havia trabalhado como cuidadora de crianças na nossa cidade, por isso a escola confiou em mim. Foi um grande benefício ajudar os jovens a conhecer nossa cultura e nossa comunidade, além de proporcioná-los um lar amoroso por quase cinco meses".
O programa Ganhando o Mundo, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR), é considerado o maior programa de intercâmbio estudantil do país. Desde 2022, já enviou mais de 4,5 mil estudantes da rede estadual para intercâmbios de quase cinco meses em países de língua inglesa, com todas as despesas custeadas pelo Governo do Paraná. As inscrições para a edição de 2027 estão abertas até 23 de abril e selecionarão estudantes para Austrália, Canadá, Irlanda, Nova Zelândia e Reino Unido.
Para Vanessa, a experiência vai muito além do aprendizado de um idioma. "Ensinar nossa cultura para quem não a conhece nos ajuda a refter e a descobrir algumas coisas sobre nós mesmos também", ponderou. Já para Crystal, a viagem ao Brasil representou a concretização de um ciclo. "Pudemos aprender sobre a cultura dos estudantes. O maior benefício foi visitar os três alunos em suas casas e comunidades no Paraná. Gostamos muito de conhecer suas escolas e passar um bom tempo com suas famílias".

