Em um discurso marcante durante a abertura da sessão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira (10), a presidente da corte, ministra Cármen Lúcia, fez uma defesa enfática da maior participação feminina nos espaços de poder da sociedade brasileira. A fala ocorreu em alusão ao Dia Internacional das Mulheres Juízas, celebrado na mesma data, e trouxe à tona questões estruturais que dificultam a ascensão das mulheres em posições de liderança.
A ministra utilizou uma metáfora contundente para ilustrar o mecanismo de exclusão. "Como nós não participamos dos chamados clubes de charutos, nós temos mais dificuldade de ocupação de um cargo, na hora em que se tem uma promoção. Por conta até desses encontros entre os homens, que têm disponibilidade muito maior para se divertirem", afirmou Cármen Lúcia. A expressão "clubes de charutos" simboliza os espaços informais, frequentemente masculinos, onde relações de poder são construídas e decisões são influenciadas, criando uma barreira invisível para a entrada e progressão das mulheres.
Além da discussão sobre acesso ao poder, a presidente do TSE direcionou sua fala para um tema urgente: a violência contra a mulher. Ela pediu uma reflexão profunda sobre o cenário atual no país, descrevendo as situações vividas por muitas brasileiras como de extrema "crueldade e perversidade". "Quando se bate, ameaça, mata uma mulher, cada uma de nós é igualmente açoitada e violentada, principalmente ferida em nossos direitos", completou, enfatizando o caráter coletivo da violência de gênero e seu impacto na garantia de direitos fundamentais.
O discurso da ministra se conecta com uma série de notícias recentes que evidenciam tanto a luta quanto os desafios enfrentados pelas mulheres no Brasil. Em um movimento de resistência, mulheres do MST ocuparam terras em protesto contra a violência e pela reforma agrária. Paralelamente, a Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para investigar vídeos que incitam ódio contra mulheres na plataforma TikTok, demonstrando como a violência se manifesta também no ambiente digital. Este último tema foi abordado em detalhes pelo programa Caminhos da Reportagem, que discutiu a propagação do ódio contra mulheres nas redes sociais.
A fala de Cármen Lúcia no TSE ressoa como um chamado para além do sistema de justiça. Ela coloca em evidência a necessidade de transformar estruturas sociais e culturais que perpetuam a desigualdade de gênero, desde os mecanismos sutis de exclusão nos "clubes" até as formas mais brutais de violência. A data do Dia Internacional das Mulheres Juíves serviu, assim, como um momento para reforçar que a presença feminina em posições de decisão é fundamental não apenas para a representatividade, mas para a construção de uma sociedade mais justa e equânime.

