Uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (9) em Brasília revela que o engajamento médio dos deputados federais com a pauta da igualdade racial é baixo. O Ranking Igualdade Racial 2025, resultado da análise de 37 mil atividades legislativas - incluindo votos nominais, discursos, pareceres, emendas e substitutivos - mesclou inteligência artificial com análise humana para avaliar o trabalho de 571 parlamentares.

O estudo, apresentado pelo Instituto de Referência Negra Peregum em parceria com a Fundação Tide Setubal, utilizou um algoritmo de IA desenvolvido pelo Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB) para produzir o levantamento. Os parlamentares receberam notas que variam de -10 (mais baixa) a +10 (mais alta), com base em suas posições - favoráveis ou contrárias - a projetos que promovam a igualdade racial ou impactem a população negra.

A coordenadora de Advocacy do Instituto de Referência Negra Peregum, Peregum Ingrid Sampaio, destacou um padrão preocupante: após os 50 primeiros colocados, as notas dos deputados caem de forma abrupta. "A partir daí, a atribuição de notas cai abruptamente para três. É uma queda muito brusca. Ela não é gradativa. Essa queda brusca faz a gente perceber que existe, sim, algum engajamento incipiente, mas que os parlamentares mais engajados precisam fazer muito esforço para compensar a falta de empenho dos demais", assegurou.

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Para Ingrid Sampaio, o baixo engajamento se deve ao fato de a pauta racial ser um tema desconfortável para o Congresso Nacional. "É uma decisão política que a pauta não avance. É um tema espinhoso porque obriga a reconhecer a responsabilidade que a gente tem como país de curar essa chaga e andar para frente. E não é confortável e os temas desconfortáveis o Congresso já vai evitar", afirmou.

O levantamento também contou com a participação do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A pesquisa promoveu a premiação, na noite desta terça-feira em Brasília, dos parlamentares que se destacaram na defesa de pautas para igualdade racial.

No ranking, as primeiras colocações são ocupadas majoritariamente por membros de partidos de centro-esquerda, mas há alguns parlamentares de direita ou centro-direita entre os primeiros 50 colocados. Ingrid Sampaio destaca que, apesar dessa pauta ser historicamente ligada à esquerda, há diversos parlamentares de fora desse campo que vêm apoiando o tema, ainda que contrariando suas bancadas. "Os partidos de esquerda são mais engajados no tema e, ao mesmo tempo, a gente tem um centro e centro-direita com algumas dissidências. Eles têm as suas discordâncias internamente e, em alguma medida, têm a liberdade para atuar de acordo com interesses locais ou da própria vivência do parlamentar", conclui.

A pesquisa aponta ainda que parlamentares negros, mulheres e indígenas são os que mais impulsionam pautas do tema racial, com maior atuação em votações, discursos, emendas e pareceres. "A pesquisa destaca, também, que, mesmo representando apenas 20% da Câmara, as mulheres ocupam a maior parte das primeiras posições, reforçando que a pluralidade de vivências é determinante na formulação de políticas mais robustas e alinhadas às necessidades da população brasileira", diz o estudo.

Ingrid Sampaio acrescentou que a presença de pessoas não brancas e mulheres no Congresso Nacional reforça a pauta pela igualdade racial. "Isso comprova, com dados, que a representatividade faz diferença. A presença de mulheres e pessoas não brancas no Congresso realmente influencia nas políticas públicas. Isso influencia na qualificação dos debates que a gente precisa ter como sociedade", ponderou.

O contexto dessa discussão se dá em um país onde, segundo dados do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), a renda de pessoas negras correspondia, em média, a 58,3% da renda das pessoas brancas. Ao longo da história, o movimento negro brasileiro defende políticas públicas para reduzir essas desigualdades.

O estudo completo pode ser acessado no site das organizações responsáveis pela pesquisa. As maiores e menores notas do Ranking Igualdade Racial 2025 estão disponíveis no material divulgado pelas instituições.