A temporada de eventos da cafeicultura paranaense em 2025 consolidou uma nova realidade para o estado: mesmo sem a liderança em volume de produção que marcou décadas passadas, o Paraná se firmou como uma referência nacional em cafés de alta qualidade. A trajetória, que já foi de quantidade, hoje se destaca pela excelência da bebida, movimentando toda a cadeia produtiva e colocando o produto local em evidência em feiras e concursos de prestígio.

Iniciativas como a Ficafé, em Jacarezinho, o Encontro de Cafeicultores de Mandaguari, a Fecat, em São Jerônimo da Serra, o Concurso Café das Mulheres do Vale do Ivaí, em Ivaiporã, o Seminário de Cafés Especiais de Apucarana e, principalmente, o 23º Concurso Café Qualidade Paraná, demonstraram não apenas o vigor do setor, mas também o impacto direto da pesquisa, da extensão rural e da assistência técnica no aprimoramento dos produtores e na elevação do padrão da bebida.

Um dos momentos altos do ano foi a participação do Paraná na Semana Internacional do Café (SIC), realizada em Belo Horizonte, Minas Gerais. Considerada uma das maiores feiras do mundo dedicadas ao setor, a SIC reuniu toda a cadeia cafeeira. O estado marcou presença com 15 produtores, que serviram como uma vitrine para os cafés especiais paranaenses. O secretário estadual de Agricultura e do Abastecimento, Marcio Nunes, destacou a importância da participação. "O Paraná, que já foi o maior produtor de café no Brasil, vem consolidando sua nova vocação, a produção de cafés especiais, com alto valor agregado. Essa participação foi uma oportunidade de mostrar ao país e ao mundo o resultado de um trabalho integrado entre governo, pesquisa e produtores", afirmou Nunes.

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Para o diretor-presidente do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), Natalino Avance de Souza, a produção cafeeira do estado vive um momento singular. "A cafeicultura é parte da nossa identidade. Hoje, com cafés premiados, cultivares próprias e famílias orgulhosas de seu produto, mostramos que o Paraná não precisa ser o maior para ser o melhor. A pesquisa e a extensão rural mudaram a qualidade da nossa bebida e, junto, transformaram o futuro da atividade", avaliou.

O Concurso Café Qualidade Paraná 2025 foi um termômetro dessa evolução. Os 108 lotes finalistas – 80 da categoria natural e 28 processados pelo método cereja descascado – chamaram a atenção dos "Q-graders" responsáveis pelo julgamento. Esses profissionais, portadores de certificação internacional, avaliam atributos como aroma, sabor, corpo, acidez e doçura, atribuindo notas que definem o padrão de qualidade de um lote. No processamento natural, os frutos são secos inteiros, enquanto no método cereja descascado, também conhecido como via úmida, a polpa do grão é retirada antes da secagem.

Um dado revelador do concurso: seis dos dez vencedores estaduais – ou dez do total de quinze premiados, incluindo os campeões regionais – utilizam cultivares desenvolvidas pelo IDR-Paraná, como as variedades IPR 100, IPR 106 e IPR 107. Esses materiais genéticos, buscados até por produtores de outros estados, se destacam pela estabilidade, produtividade e pelo perfil sensorial da bebida que proporcionam.

A campeã da categoria "café natural", Flávia Guimarães da Silva Rosa, de Apucarana, é um exemplo dessa nova geração de cafeicultores. Com 70 mil pés das cultivares IPR 100 e IPR 106, ela buscou entender com precisão "qual é o produto que produzo". A resposta veio com técnica: colheita no ponto certo, cuidados no terreiro, secagem controlada e um lote preparado com dedicação. "Descobrir o potencial do café de Apucarana é muito gratificante. A assistência técnica do IDR-Paraná nos mostrou que a tecnologia agrega valor e fortalece a agricultura familiar", afirmou a produtora.

Para o engenheiro-agrônomo Marco Antônio Casini Sanches, extensionista do IDR-Paraná que presta assistência a Flávia Rosa, o bom desempenho é fruto de uma orientação técnica contínua. "A assistência é contínua, desde adubação, manejo de solo, controle fitossanitário, ponto certo de colheita e preparação do lote. Quando o produtor segue a recomendação, a qualidade aparece", explicou.

Atualmente, a cafeicultura ocupa 25,4 mil hectares no Paraná, com uma produção anual estimada em 749 mil sacas beneficiadas e um Valor Bruto de Produção de R$ 1,1 bilhão. A atividade está presente em 180 municípios, onde cerca de 80% das propriedades são da agricultura familiar. Embora a proporção oficial de cafés especiais não seja conhecida, estimativas de mercado e os resultados dos concursos indicam que uma parcela crescente da produção, possivelmente acima de 40% em algumas regiões, já atinge padrões de qualidade especial ou superior, confirmando a nova e promissora vocação do estado.