O segredo mais bem guardado do grupo Brilhetes de Anchieta está prestes a ser revelado. Nesta sexta-feira (13), quando o portão da garagem do quartel-general das brilhetes se abrir ao som de fogos e muito funk, 38 meninas e mulheres desfilarão pela rua exibindo a fantasia do 13º ano do grupo. A indumentária, preparada com máxima discrição ao longo de seis meses, representa a continuidade de uma tradição que se reinventa: os bate-bolas, turmas de mascarados que usam fantasias temáticas ricas em cores e brincam o carnaval nas ruas do subúrbio do Rio de Janeiro.
Para Vanessa Amorim, produtora cultural e fundadora das Brilhetes, a saída representa mais do que a revelação de uma fantasia. "É a materialização de um sonho que começou em 2013, quando eu e outras mulheres decidimos disputar a rua", conta. Antes, ela desfilava na Turma do Brilho, fundada pelo sogro em 1991 e hoje administrada pelo marido. "Eu sempre via as meninas ajudando, levando bandeira, olhando criança, e eles à frente. As mulheres ficavam sempre na posição de mãe e esposa e nunca como brincante".
O grupo reúne mulheres de 3 a 58 anos com diversas ocupações: professoras, cuidadoras, técnicas em enfermagem, bombeiras, estudantes, pesquisadoras de instituições culturais. Para Alexandra Cunha, de 44 anos, mãe de três filhos, as brilhetes se tornaram sua segunda família. "É uma emoção grande fazer o que você vai vestir. Gliterar, pregar os lacres nas casacas, o buá... No dia da saída, com o bate-bola pronto, a gente chora de emoção".
Em 2026, a turma homenageia a escritora mineira Conceição Evaristo, que completa 80 anos em novembro. Uma de suas frases – "eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer" – estampa uma camiseta do "kit" da turma. Vanessa explica a escolha: "Conceição é uma artista que escreve desde sempre e só recentemente foi notada. Ela é professora aposentada, sai de uma comunidade para o Rio, uma mulher negra cuja história precisa ser conhecida e reverenciada".
As fantasias das brilhetes são verdadeiras obras de arte coletivas. A máscara, que cobre totalmente o rosto das integrantes, foi pintada à mão, cor por cor, em um trabalho que levou semanas. O traje completo inclui macacão bufante, casaca gliterada, buá, bandeira, bexiga (a tradicional bola de borracha amarrada em bastão), meia, luva e sapato estilizados. Para financiar cada fantasia – que pode custar entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil –, as integrantes comprometem-se com dez prestações mensais de R$ 150, além de arcarem com itens como tênis e essência individual.
O "cheirinho" de bate-bola é uma das marcas da manifestação cultural. Este ano, as brilhetes escolheram aroma de morango para suas fantasias. Tudo é preparado no quintal da casa de Vanessa, que serve como barracão ou quartel-general do grupo – espaço onde ocorrem tanto as confraternizações quanto a preparação das fantasias ao longo do ano.
Por trás da festa, porém, há uma luta por reconhecimento. Caroline Bottino, professora de Turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), explica que os grupos de bate-bola são extremamente organizados e, desde que foram reconhecidos como Patrimônio Cultural em 2012, precisaram se registrar para concorrer a editais públicos. "O apoio financeiro do Estado, no entanto, é aquém do necessário e bem menor que o investimento nas áreas turísticas e centrais do Rio", afirma.
Para a especialista, os bate-bolas descentralizam o carnaval ao fazerem a festa no subúrbio, mas só existem devido à resistência de seus integrantes há gerações. "É uma manifestação cultural muito forte do subúrbio, como as escolas de samba, que estão nas comunidades periféricas". A falta de apoio, segundo ela, "escancara a segregação de investimentos na festa. O carnaval do Rio tem endereço certo e cada vez mais ele é projetado para atrair o turismo".
Este ano, os bate-bolas enfrentam mais um obstáculo: para participar do concurso anual de fantasias na Terça-Feira de Carnaval (17), no centro da cidade, precisam enviar um representante presencialmente pela manhã para inscrever o grupo. "Para a gente, é muito difícil, porque daqui saímos de trem, e isso pode demorar 1h, 1h20. É muito complicado ir até lá e depois voltar para pegar a fantasia. É longe", explica Vanessa, que pede inscrições remotas. "Fizemos uma fantasia de muita qualidade e queremos poder exibi-la e ter reconhecimento".
A Riotur, braço da prefeitura que organiza o carnaval, não forneceu informações atualizadas sobre a competição nem comentou as críticas sobre a centralização de investimentos. Enquanto isso, as brilhetes seguem preparando sua saída, contratando equipes de som de bailes e organizando um bar para cobrir custos remanescentes. Além de desfilar em Anchieta, na zona norte, o grupo aparece em bloquinhos do centro ou da zona sul e prestigia saídas de bate-bolas de outros bairros e cidades.
Para Ana Júlia Guimarães, de 17 anos, que vai desfilar pela primeira vez junto com a mãe, a experiência já transformou seu medo em paixão. "Quando eu era pequena, eu tinha muito medo de bate-bola, mas, há três anos, minha mãe entrou na turma e eu vim juntou. O processo de montar as roupas, a saída, é uma experiência muito legal". Nesta sexta-feira, quando as máscaras pintadas à mão finalmente forem reveladas, não serão apenas fantasias que tomarão as ruas de Anchieta, mas a resistência de mulheres que transformaram uma tradição em espaço de pertencimento e celebração da própria história.

