Brasília se torna, a partir desta quarta-feira (11), a Capital Ibero-Americana de Patrimônio Cultural, título concedido pela União de Cidades Capitais Ibero-Americanas (UCCI). A honraria será oficializada durante a reunião do Comitê Setorial de Patrimônio Cultural da organização, que ocorre até sexta-feira (13) no Salão Nobre do Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal. O evento tem início às 14h e reúne representantes de 29 cidades de 24 países.
Entre os objetivos centrais do encontro estão a elaboração de estratégias conjuntas para proteção dos patrimônios material e imaterial e a inovação em políticas públicas na área. Os participantes também devem promover o intercâmbio de boas práticas de gestão e o fortalecimento da identidade histórica urbana das cidades-membro. Para o secretário de Relações Internacionais do DF, Paco Britto, o novo título amplia a projeção internacional de Brasília como "capital do diálogo, da diplomacia e da preservação do patrimônio".
O encontro dará continuidade às discussões iniciadas em Lima, no Peru, em 2025, abordando eixos temáticos específicos. A expectativa é que, ao final do evento, seja apresentada uma Carta de Compromisso comum com a preservação, valorização e gestão sustentável do patrimônio cultural. A UCCI atua como plataforma para cooperação urbana, intercâmbio de conhecimentos e disseminação de boas práticas entre suas cidades-membro, que somam 76 milhões de habitantes falantes de espanhol e português. Do Brasil, além de Brasília, participam São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ).
Brasília carrega o título de Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1987, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Para a pesquisadora em arquitetura Angelina Nardelli Quaglia, da Universidade de Brasília (UnB), a capital brasileira "proporciona culturalmente valores únicos". Ela destaca que "Brasília é uma capital reconhecida internacionalmente pela arquitetura e pelos processos culturais que aqui acontecem", com diversidade cultural como marca fundamental, incluindo influências de todo o país.
A pesquisadora também ressalta o papel simbólico da cidade na democracia brasileira, mencionando a luta pela liberdade, a Constituição de 1988 e a resistência após os ataques de 8 de janeiro de 2023. "Eu entendo que é uma cidade à frente do tempo", afirma. No entanto, Angelina Nardelli aponta desafios históricos: a cidade, inaugurada em 1960, não teve legislação específica para manutenção do patrimônio durante boa parte do período da ditadura militar (1964-1985).
"Tivemos um hiato muito grande de uma legislação que também começa a se transformar mundialmente (mas não no Brasil)", observa. O cenário começou a mudar com o título da Unesco em 1987, quando "a memória foi reconhecida como patrimônio". Apesar de avanços recentes, como a aprovação do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB) há dois anos, a pesquisadora defende que são necessários mais recursos e políticas públicas de proteção. "Em Brasília, isso devia ser um exemplo, mas ainda não é. A capital é uma cidade muito nova", conclui.

