Uma pesquisa abrangente, que reuniu dados de 130 estudos científicos em 55 países, trouxe à tona uma realidade alarmante: as bitucas de cigarro se tornaram uma das formas mais onipresentes de poluição ambiental no mundo. Todos os anos, nada menos do que 4,5 trilhões desses pequenos resíduos são descartados incorretamente, o que equivale a aproximadamente 550 bitucas para cada habitante do planeta. A massa total desse material descartado chega à impressionante marca de 766,6 milhões de quilos anuais.
O levantamento, fruto de uma parceria entre pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto Nacional de Câncer (Inca), Johns Hopkins University (EUA) e Universidad San Ignacio de Loyola (Peru), constitui a síntese mais completa já produzida sobre a distribuição global das bitucas e seus impactos ambientais. Publicado no periódico Environmental Chemistry Letters, o artigo tem como primeiro autor o engenheiro ambiental Victor Vasques Ribeiro, doutorando do Instituto do Mar da Unifesp.
Os números são chocantes. Em ambientes urbanos e aquáticos, a densidade média é de 0,24 bitucas por metro quadrado – como encontrar uma bituca a cada quatro metros quadrados. Em picos extremos, principalmente em praias e áreas costeiras muito frequentadas, essa densidade ultrapassa 38 bitucas por metro quadrado. "Os contaminantes químicos presentes na bituca espalham-se rapidamente, ainda mais quando em contato com a água do mar. Em poucas semanas, esse material tóxico é liberado no meio ambiente, podendo ser letal para várias espécies aquáticas", alerta Ribeiro.
O problema vai além do visual desagradável. Os cigarros contêm mais de 7 mil compostos químicos, sendo pelo menos 150 reconhecidamente tóxicos. O filtro, composto por acetato de celulose – um tipo de polímero –, se fragmenta em microplásticos que contaminam organismos marinhos e podem retornar aos humanos através da cadeia alimentar. "Se as pessoas entendessem que estão jogando uma bomba química quando descartam uma bituca, talvez não agissem com tanta normalidade", reflete o pesquisador.
André Salém Szklo, da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca e orientador do estudo, destaca que a existência do filtro foi historicamente usada como argumento de marketing pela indústria do tabaco. "Passa a ideia de que, com filtro, o cigarro seria um produto mais saudável, favorecendo, portanto, a iniciação e a manutenção do comportamento de fumar. Mas isso não se sustenta. Com a introdução dos filtros, aumentou, inclusive, um tipo específico de câncer de pulmão, ligado a partículas finas", revela.
Szklo também critica a narrativa da indústria sobre responsabilidade individual no descarte. "É importante não culpabilizar o fumante. A indústria do tabaco durante décadas difundiu a ideia de que o filtro seria biodegradável. Isso influenciou e influencia o comportamento. A verdade é que somente existe a contaminação por bitucas porque existe uma indústria que lucra com a venda de cigarros."
Globalmente, são fumados cerca de 12 trilhões de cigarros por ano, e uma fração enorme desses resíduos acaba nos oceanos. Praias se tornaram verdadeiros "sumidouros" de bitucas, não apenas pelo descarte local, mas também porque resíduos descartados em cidades ou regiões distantes são carregados pela chuva e rios até o mar. Além do impacto direto, a produção e o consumo de cigarros emitem 84 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera anualmente.
A análise identificou hotspots de contaminação em 17 países, principalmente na América do Sul, Oriente Médio e Sudeste Asiático. No Golfo Pérsico, já foram registradas mais de 38 bitucas por metro quadrado. Na América do Sul, praias do Chile, Brasil, Uruguai e Equador aparecem repetidamente entre os locais críticos, com mais da metade do lixo coletado composto por bitucas em alguns casos.
Os pesquisadores criaram o Índice de Contaminação por Bitucas de Cigarro (ICBC) para classificar a gravidade do problema, mas destacam que faltam dados publicados para grandes regiões como América do Norte, África, Ásia Central e Oriental e toda a Oceania, o que dificulta comparações globais mais precisas.
Um achado preocupante do estudo é que mesmo áreas ambientalmente protegidas não estão imunes à contaminação. Ao analisar 165 áreas protegidas em 37 países, os pesquisadores constataram que a densidade média de bitucas nesses locais foi quase cinco vezes menor do que em áreas desprotegidas – e nas categorias mais restritivas de proteção, a redução foi ainda maior. No entanto, hotspots foram encontrados dentro de parques e reservas, principalmente onde há turismo intenso ou fiscalização limitada.
"Mesmo assim, hotspots foram encontrados dentro de áreas protegidas, que incluem parques e reservas, principalmente onde há turismo intenso ou fiscalização limitada. A simples designação legal não basta. Principalmente diminuição geral do número de fumantes, mas também infraestrutura, fiscalização e educação ambiental fazem diferença", comenta Ribeiro.
Para Szklo, não é possível discutir contaminação por plásticos sem considerar o impacto das bitucas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. "Estamos falando do item mais descartado do mundo. Em alguns lugares, mais da metade do lixo de uma praia é composta só por bitucas. Já houve casos em que praticamente 100% dos resíduos eram filtros. Como pensar um tratado global contra o plástico ignorando o fortalecimento da implementação de medidas de redução do tabagismo previstas na Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde?", questiona.
Os pesquisadores defendem que as informações do estudo devem subsidiar tanto negociações internacionais – como o tratado da ONU contra a poluição plástica – quanto medidas locais, incluindo proibição de fumar em praias e parques, campanhas educativas, melhoria da gestão de resíduos e maior responsabilização da indústria do cigarro. O estudo recebeu apoio da Fapesp por meio de bolsa de doutorado para Ribeiro e auxílio à pesquisa para o segundo autor, Lucas Buruarem Moreira.

