O governo da Argentina confirmou nesta quarta-feira (18) que enviaria militares para o conflito no Oriente Médio caso os Estados Unidos (EUA) solicitassem. A declaração foi feita pelo porta-voz presidencial Javier Lanari em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, reforçando o alinhamento automático do presidente Javier Milei com Washington e Tel Aviv.

"Se os Estados Unidos solicitarem, sim. Qualquer assistência que eles considerem necessária será fornecida", afirmou Lanari, completando que não sabe se os EUA já pediram ajuda. A posição ocorre em meio a denúncias de corrupção envolvendo o presidente argentino no caso da criptomoeda Libra, que gerou perdas milionárias para investidores.

Desde que assumiu a presidência em dezembro de 2023, Milei tem adotado uma postura de apoio irrestrito a Israel e aos Estados Unidos. Entre as medidas anunciadas estão a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS), imitando políticas de Washington, e a promessa de transferir a embaixada argentina de Tel Aviv para Jerusalém - movimento simbólico que reconhece a cidade como capital israelense, ignorando as reivindicações palestinas por Jerusalém Oriental.

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O alinhamento vai além do discurso diplomático. Milei já classificou o Irã como "inimigo" e repetiu acusações de que Teerã estaria por trás do atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994, episódio que o governo iraniano sempre negou. As falas duras do presidente argentino provocaram reação do Tehran Times, importante jornal iraniano, que publicou editorial defendendo que o governo não pode permanecer indiferente às "posições hostis" de Buenos Aires.

"Parece que Milei, com essa postura e ao cruzar a linha vermelha da segurança nacional iraniana, busca sacrificar os interesses e a conveniência nacionais no altar dos EUA e do regime de apartheid israelense", escreveu o colunista Saleh Abidi Maleki no periódico iraniano.

Enquanto a disposição bélica é anunciada, o governo argentino enfrenta novas turbulências internas. O jornal El Destape revelou no último sábado (14) que uma análise pericial do celular do empresário Mauricio Novelli encontraria indícios de um suposto acordo de US$ 5 milhões envolvendo o presidente e sua irmã Karina Milei. O suposto acordo teria ocorrido dias antes de Milei promover a criptomoeda Libra nas redes sociais em fevereiro de 2025.

O presidente ainda não se pronunciou sobre as novas denúncias. O ministro da Justiça, Juan Bautista Mahiques, defendeu que seria "imprudente" acusar Milei sem provas concretas, enquanto deputados da oposição tentam abrir investigação parlamentar sobre o caso.

Esta não seria a primeira participação argentina em conflitos no Oriente Médio. Em 1991, durante o governo de Carlos Menem, o país enviou navios de guerra para auxiliar no bloqueio naval durante a Guerra do Golfo, após a invasão do Kuwait pelo Iraque. A decisão atual, porém, ocorre em contexto geopolítico distinto, com a guerra entre Israel e Hamas se expandindo para outros fronts, incluindo ataques israelenses em Beirute.

Historicamente, as intervenções militares argentinas nem sempre contaram com apoio norte-americano. Na Guerra das Malvinas (1982), quando a ditadura militar argentina tentou tomar o arquipélago controlado pelo Reino Unido (chamado pelos britânicos de ilhas Falklands), os Estados Unidos apoiaram os ingleses. O conflito custou a vida de 649 argentinos e 255 britânicos, marcando uma das derrotas mais traumáticas da história militar argentina.

Agora, quatro décadas depois, o governo Milei parece disposto a reescrever essa história de relações com Washington, oferecendo apoio militar incondicional em troca de alinhamento político. A estratégia, porém, divide opiniões dentro da Argentina, onde setores questionam os custos dessa aproximação e as motivações por trás das decisões presidenciais.