Em uma sessão extraordinária marcada por tensão e debates acalorados, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) decidiu, nesta quinta-feira, pela soltura do presidente afastado da Casa, Rodrigo Bacellar (União Brasil). A votação, que contou com a presença de 65 deputados, registrou 42 votos favoráveis à liberdade do parlamentar, 21 contrários e duas abstenções. A decisão ocorre menos de 48 horas após a prisão preventiva de Bacellar, deflagrando uma nova crise política no estado.

O deputado estadual Rodrigo Bacellar foi preso na manhã de quarta-feira (3), durante a Operação Unha e Carne, conduzida pela Polícia Federal (PF). A ação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e executada enquanto Bacellar prestava depoimento na sede da PF no Rio de Janeiro. A operação investiga o vazamento de informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun, que resultou na prisão do deputado estadual TH Joias.

Segundo a Polícia Federal, Bacellar é suspeito de envolvimento direto no repasse de dados confidenciais que teriam antecipado detalhes da operação que mirava TH Joias. O vazamento, de acordo com as investigações, comprometeu seriamente o andamento das apurações, dificultando a coleta de provas e colocando em risco a eficácia da ação policial. As interceptações de mensagens obtidas pela PF foram fundamentais para embasar a prisão preventiva do presidente da Alerj.

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A decisão da Alerj pela soltura de Bacellar reacendeu o debate sobre a autonomia do Legislativo frente a ações do Judiciário e do Ministério Público. Os deputados favoráveis à libertação argumentaram que a prisão preventiva seria desproporcional e que o parlamentar deveria responder ao processo em liberdade, garantindo o direito à ampla defesa. Já os contrários destacaram a gravidade das acusações e a necessidade de preservar a investigação, evitando possíveis obstruções.

A Operação Zargun, que deu origem a toda a controvérsia, foi deflagrada para investigar supostos esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo TH Joias. O vazamento de informações sigilosas, atribuído a Bacellar, teria permitido que alvos da operação fossem alertados, comprometendo a surpresa e a eficiência da ação policial. A PF ressaltou que a quebra de sigilo prejudicou diretamente o trabalho de seus agentes e pode ter facilitado a destruição de provas.

Com a soltura aprovada pela Alerj, Rodrigo Bacellar deve ser liberado nos próximos dias, mas continuará respondendo ao processo judicial. O caso segue sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes no STF, que poderá revisar a decisão da Assembleia. A situação expõe as fraturas políticas no Rio de Janeiro e coloca em xeque a relação entre os poderes, em um momento de intensa polarização e escândalos recorrentes.

Especialistas em direito constitucional avaliam que a decisão da Alerj, embora legal, pode gerar repercussões negativas para a imagem do Legislativo fluminense, já abalado por uma série de investigações recentes. A sociedade carioca acompanha com apreensão os desdobramentos, questionando a efetividade das instituições no combate à corrupção e na garantia da justiça. O episódio reforça a percepção de que o Rio de Janeiro vive uma crise institucional profunda, com reflexos diretos na segurança pública e na confiança da população.