A história de D., de 18 anos, poderia ter sido marcada por um ponto final após um ato infracional que o levou a um Centro de Socioeducação (Cense) do Paraná. Mas, em vez disso, tornou-se um capítulo de transformação. Após cumprir medida socioeducativa de internação por um ano e seis meses e ser encaminhado para uma casa de semiliberdade, ele descobriu na tecnologia um caminho para ressignificar suas escolhas. Neste ano, deu um passo decisivo: ingressou no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas em uma instituição pública de ensino do estado.

Com afinidade pela área, D. dedicou-se aos estudos com o apoio do sistema socioeducativo, conciliando preparação para o vestibular com sua rotina. "Quando a gente quer alguma coisa, a gente faz acontecer", afirma o jovem, que já planeja seguir na carreira de desenvolvimento de jogos após a graduação. Seu conselho para outros adolescentes que sonham com a universidade é direto: "Se não deu certo, é sempre importante tentar de novo, se realmente for um sonho".

A trajetória de D. não é um caso isolado. G., também de 18 anos, foi aprovado no vestibular para Direito justamente no período em que foi encaminhado a um Cense após cometer um ato infracional. Com o apoio da equipe socioeducativa, ele manteve o foco nos estudos e hoje cursa o segundo ano da graduação, em regime de semiliberdade. "Eu aprendi a ler. Eu já lia antes, mas não com a frequência que leio aqui. Está sendo uma experiência e tanto", relata o jovem, destacando como o sistema o ajudou a criar novos hábitos.

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Para Valdemar Jorge, secretário de Estado da Justiça e Cidadania (Seju), que acompanhou D. na primeira semana de aulas, estudo e trabalho são ferramentas essenciais na socioeducação. "É muito bom saber que há adolescentes que estão superando barreiras, estão entrando em universidades e, com isso, ganhando expectativas de futuro", comenta. Ele enfatiza que, após o acolhimento, "o tempo de ociosidade deve ser substituído com leitura, estudos e formação profissional, porque assim o recomeço torna-se realmente possível".

Alex Sandro da Silva, coordenador de Gestão do Sistema Socioeducativo do Estado, ressalta que o incentivo ao ensino superior faz parte da rotina nos centros. "Buscamos incentivá-los para o ingresso no ensino superior, mostrando que é algo possível e que as universidades são espaços que também pertencem a eles", explica. A estratégia inclui visitas a instituições de ensino e participação em feiras de profissões, com o objetivo de ampliar horizontes e apresentar novas oportunidades.

O Paraná conta com uma rede de 28 unidades socioeducativas, incluindo 19 Censes e nove Casas de Semiliberdade, administradas pela Seju. As políticas são baseadas em princípios de atenção integral e prioritária, articulando ações de prevenção de riscos e promoção de fatores de proteção. Histórias como as de D. e G. ilustram como esse sistema pode ser um catalisador para a reconstrução de futuros, provando que, mesmo após um erro, é possível escrever novos capítulos com esperança e determinação.