Desde o início de 2025, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) tem realizado um trabalho minucioso de resgate da fauna e flora na região do Reservatório Miringuava, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Um dos destaques desse esforço ambiental é o salvamento de colmeias de abelhas nativas sem ferrão, essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas locais. Até o momento, já foram registrados 123 resgates de ninhos de vespas e colmeias, sendo mais de 70 destas últimas pertencentes a 15 espécies diferentes de abelhas nativas.

O diretor-presidente da Sanepar, Wilson Bley, enfatiza que a construção de um reservatório é uma obra complexa, mas que vem acompanhada de um planejamento ambiental rigoroso. “Cada etapa foi executada de maneira a minimizar os impactos ambientais. Garantimos a segurança hídrica da população de Curitiba e Região Metropolitana com aumento de 25% de reservação de água do sistema integrado com o Reservatório Miringuava e mantemos nosso compromisso com a sustentabilidade durante todas as etapas de construção, enchimento e operação da barragem”, afirma Bley.

A bióloga e gestora ambiental da companhia, Ana Cristina do Rego Barros, detalha que equipes especializadas atuam em paralelo aos trabalhos de supressão vegetal e limpeza da área. “Além das abelhas, mais de 10 mil animais silvestres já foram resgatados ou afugentados. O trabalho será mantido até a finalização do enchimento da barragem”, explica Ana Cristina. O acompanhamento simultâneo garante que a fauna local seja protegida enquanto a infraestrutura hídrica avança.

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De acordo com Hélio Massao Isobe, biólogo da empresa Jardiplan, contratada pela Sanepar para o resgate da fauna, a maioria das abelhas salvas pertence ao grupo Meliponini, conhecidas como nativas sem ferrão. Também foram encontradas abelhas exóticas do gênero Apis, além de mamangavas e vespas. “Uma das espécies que tivemos maior número é uma espécie bastante interessante e peculiar, que é a Mirim-Guaçu (Plebeia remota). É uma abelha que poliniza, e as colmeias que encontramos apresentam uma reserva de alimento muito grande, o que para os criadores é algo diferente”, relata Isobe.

O biólogo ressalta a importância do resgate, especialmente durante a fase de enchimento da barragem, pois as abelhas não abandonam espontaneamente seus ninhos. “As abelhas vivem em colmeia, têm um grupo de castas sociais onde elas se organizam, cada uma na sua função. Mesmo que a água suba, elas não vão sair. Então, a gente precisa ir lá retirar o ninho, passar para uma caixa ou retirar em cepo (secção de tronco) e fazer a remoção do local”, explica. O método de resgate varia conforme a situação: se a colmeia fica exposta após o corte da vegetação, é transferida para uma caixa e enviada ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas); se está dentro de um tronco, toda a estrutura é encaminhada para o centro.

No Cetas, as colmeias são monitoradas para verificar se conseguem se reestruturar, controlar infestações de forídeos (pequenas moscas) e reiniciar a produção de mel e pólen. A maioria será destinada a áreas de preservação permanente da represa, enquanto o restante será enviado a meliponicultores da Bacia do Miringuava para enriquecimento genético, além de instituições como a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Embrapa e a prefeitura de São José dos Pinhais, que desenvolve um projeto educativo com um meliponário de referência.

As abelhas desempenham um papel crucial na proteção de rios, nascentes e mananciais, promovendo a regeneração natural de florestas e matas ciliares por meio da polinização. “As abelhas cumprem um serviço ecossistêmico imensurável, não tem como calcular. É muito importante que a gente desempenhe esse papel, porque é um patrimônio genético que está aqui, traz uma série de informações importantes e servirá para inúmeras pesquisas e estudos”, complementa Hélio Isobe.

Paralelamente ao resgate no Miringuava, a Sanepar mantém o projeto Jardim de Água e Mel, que visa a conservação de abelhas nativas sem ferrão, como mandaçaia e jataí, por meio da criação de jardins em ambientes escolares. Esses espaços também incentivam o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (Pancs), flores melíferas e a prática de compostagem. Desde 2021, a iniciativa já entregou 79 jardins compactos, três completos e 37 minimalistas, totalizando 614 colônias e impactando mais de 89 mil pessoas em 32 municípios paranaenses.

O compromisso ambiental da Sanepar tem ganhado reconhecimento internacional: a empresa é finalista na categoria Campeões do ODS 6 no Global Water Awards, considerado o Oscar da água. Além disso, a companhia anunciou planos para ampliar sua usina de biogás e estações de tratamento com financiamento de um banco alemão, reforçando sua atuação sustentável no setor de saneamento.