Em um gesto incomum de diplomacia pública, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, publicou nesta quarta-feira (1º) uma longa carta em inglês dirigida "ao povo dos Estados Unidos da América" e "aqueles que continuam a buscar a verdade". O texto, divulgado na rede social X, busca combater o que o líder iraniano chamou de "enxurrada de distorções e narrativas fabricadas" sobre seu país.
Pezeshkian iniciou a mensagem afirmando que o povo iraniano "não nutre inimizade contra outras nações, incluindo o povo da América, da Europa ou de países vizinhos". Ele destacou um princípio que considera fundamental na cultura de seu país: "Os iranianos sempre traçaram uma distinção clara entre governos e os povos que eles governam. Este é um princípio profundamente enraizado na cultura iraniana e na consciência coletiva — não uma posição política passageira".
O presidente fez questão de ressaltar o histórico de seu país, lembrando que o Irã é "uma das civilizações contínuas mais antigas da história humana" e que, apesar das vantagens históricas e geográficas, nunca escolheu "o caminho da agressão, da expansão, do colonialismo ou da dominação". Esta afirmação serve como pano de fundo para sua crítica principal: a presença militar norte-americana na região.
Crítica à presença militar dos EUA
"Dentro desse mesmo quadro, os Estados Unidos concentraram o maior número de suas forças, bases e capacidades militares ao redor do Irã — um país que, ao menos desde a fundação dos Estados Unidos, nunca iniciou uma guerra", escreveu Pezeshkian. Ele argumentou que "agressões americanas recentes lançadas a partir dessas mesmas bases demonstraram o quão ameaçadora essa presença militar realmente é", justificando assim o fortalecimento das capacidades defensivas iranianas como uma resposta natural.
"O que o Irã fez — e continua a fazer — é uma resposta comedida, fundamentada na legítima autodefesa, e de forma alguma uma iniciativa de guerra ou agressão", defendeu o presidente, estabelecendo o que considera ser a posição oficial de seu país no conflito atual.
Raízes históricas da desconfiança
A carta faz um retrospecto histórico para explicar as origens da atual desconfiança entre os dois países. Pezeshkian lembra que as relações nem sempre foram hostis, mas se deterioraram dramaticamente após a Operação Ajax em 1953 — um golpe de Estado articulado pelos Estados Unidos e Reino Unido que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mossadegh, após a decisão do governo iraniano de nacionalizar os recursos petrolíferos do país.
"Esse golpe desestruturou o processo democrático iraniano, restaurou uma ditadura e semeou uma profunda desconfiança entre os iranianos em relação às políticas dos EUA", afirmou. Segundo ele, essa desconfiança só aumentou com "o apoio americano ao regime do xá, o respaldo a Saddam Hussein durante a guerra imposta dos anos 1980, a imposição das mais longas e abrangentes sanções da história moderna e, por fim, agressões militares não provocadas — duas vezes, inclusive em meio a negociações — contra o Irã".
Resiliência e desenvolvimento
O presidente iraniano argumentou que todas essas pressões fracassaram em enfraquecer seu país. Pelo contrário, segundo ele, o Irã se fortaleceu em diversas áreas após a Revolução Islâmica: "As taxas de alfabetização triplicaram; o ensino superior se expandiu de forma significativa; avanços expressivos foram alcançados em tecnologia moderna; os serviços de saúde melhoraram; e a infraestrutura se desenvolveu em um ritmo e escala incomparáveis ao passado".
No entanto, Pezeshkian reconheceu que "o impacto destrutivo das sanções, da guerra e da agressão sobre a vida do 'resiliente povo iraniano' não deve ser subestimado". Ele destacou como os bombardeios recentes afetam profundamente a vida das pessoas: "Quando a guerra inflige danos irreparáveis a vidas, lares, cidades e futuros, as pessoas não permanecem indiferentes aos responsáveis".
Questionamentos diretos
O texto contém uma série de questionamentos provocativos dirigidos ao público norte-americano. Pezeshkian pergunta se realmente existia "alguma ameaça objetiva por parte do Irã que justificasse tal comportamento" e se "o massacre de crianças inocentes, a destruição de instalações farmacêuticas de tratamento contra o câncer, ou vangloriar-se de bombardear um país 'de volta à idade da pedra' serve a algum propósito além de prejudicar ainda mais a posição global dos Estados Unidos?".
Um dos pontos mais contundentes da carta questiona o papel de Israel no conflito: "Não é verdade que Israel, ao fabricar uma ameaça iraniana, busca desviar a atenção global de seus crimes contra os palestinos? Não é evidente que Israel agora pretende lutar contra o Irã até o último soldado americano e até o último dólar do contribuinte americano?".
Conflito completa um mês
A publicação da carta coincide com o primeiro mês dos ataques combinados de Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, ainda sem perspectiva concreta de um acordo que ponha fim ao conflito. Entre as vítimas estão autoridades importantes do país persa, incluindo o líder supremo Ali Khamenei.
As consequências do conflito já são sentidas globalmente. O fechamento do Estreito de Ormuz — rota controlada pelo Irã por onde circulam cerca de 20% dos carregamentos de petróleo no mercado internacional — fez o preço do barril aumentar cerca de 50%. Pesquisadores já apontam riscos ambientais e climáticos associados aos combates.
Nesta mesma quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fará um pronunciamento à nação sobre a guerra, programado para as 22h (horário de Brasília). A carta de Pezeshkian parece ser um esforço para influenciar a opinião pública norte-americana antes deste importante discurso.
O presidente iraniano concluiu seu apelo convidando os leitores a "olhar além da máquina de desinformação" e observar "os muitos imigrantes iranianos bem-sucedidos — formados no Irã — que hoje lecionam e realizam pesquisas nas universidades mais prestigiadas do mundo, ou contribuem para as empresas de tecnologia mais avançadas no Ocidente". Para ele, estas realidades contradizem as distorções apresentadas sobre seu país e seu povo.

