MPRJ fecha 2025 com quase R$ 1 bilhão bloqueado de organizações criminosas
Gaeco intensifica combate financeiro ao crime com investigações patrimoniais e parcerias estratégicas
Publicado em 07/jan/26 | 09:01
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) encerrou o ano de 2025 com números que refletem um ataque direto ao bolso do crime organizado no estado. Por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a instituição requereu ao Judiciário o bloqueio de impressionantes R$ 906.265.077,21 em recursos vinculados a pessoas e organizações criminosas. O montante, que se aproxima da marca de um bilhão de reais, é resultado de uma atuação qualificada que buscou estrangular financeiramente as facções.
Para alcançar esse resultado, o Gaeco aprimorou seus métodos de investigação, ampliou o intercâmbio de informações sobre crimes financeiros de alcance nacional e transnacional e firmou parcerias estratégicas. Um exemplo foi o Acordo de Cooperação Técnica firmado pelo MPRJ com a Polícia Civil, em março de 2024, com o objetivo de expandir a aplicação do confisco de bens nas investigações patrimoniais. Esse instrumento é considerado essencial para rastrear, bloquear e recuperar patrimônios ilícitos.
De acordo com a coordenadora do Gaeco, promotora de Justiça Letícia Emile Alqueres Petriz, o impacto dessas ações vai além dos números. "A asfixia financeira das organizações criminosas atinge o núcleo de sustentação, enfraquecendo a capacidade de operação e expansão. A atuação do Gaeco é estrategicamente orientada para minar o poder econômico desses grupos, especialmente por meio da investigação patrimonial e da aplicação do confisco alargado, que permite retirar da criminalidade os recursos obtidos de forma ilícita e impedir sua reinserção no circuito econômico", afirmou.
Em 2025, o Gaeco também foi prolífico na esfera criminal. O grupo ajuizou 70 denúncias contra 767 pessoas, sendo 120 agentes públicos. Além disso, obteve ordens judiciais que subsidiaram 39 operações voltadas ao cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão.
Entre as principais ações do ano, destacam-se o cumprimento de mandados relacionados ao homicídio do advogado Rodrigo Crespo; operações contra uma organização que furtava petróleo bruto dos dutos da Transpetro, atuando no Rio de Janeiro e em Minas Gerais; e a participação em ações conjuntas, como a Operação Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), contra um esquema bilionário de adulteração de combustíveis.
As denúncias abrangeram uma ampla gama de criminosos. Foram denunciados nove integrantes do chamado novo "Escritório do Crime" (incluindo três policiais militares), membros da nova cúpula do jogo do bicho – como Rogério de Andrade, Flávio da Silva Santos (o "Pepé" ou "Flávio da Mocidade") e Vinicius Drumond – e 67 integrantes da facção Comando Vermelho.
O combate à corrupção no serviço público também foi intenso. Servidores foram denunciados por crimes como peculato, corrupção, fraudes em licitação, lavagem de capitais e envolvimento com milícias. Em casos emblemáticos, foram denunciados 22 agentes do Degase por incitar internos à depredação; servidores e engenheiros do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) por esquema de corrupção em licenças ambientais; três bombeiros militares de Cabo Frio; e dois ex-secretários municipais de Silva Jardim por crimes em licitações.
O ano também trouxe decisões judiciais favoráveis em medidas cautelares. Foram mantidos na prisão figuras como o contraventor Rogério de Andrade, no Presídio Federal de Campo Grande (MS), e o miliciano Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, em Brasília (DF). Em segunda instância, foi confirmada a pronúncia para julgamento no Tribunal do Júri do bicheiro Bernardo Bello e de Wagner Dantas Alegre, acusados do homicídio do contraventor Alcebíades Paes Garcia, o Bid.
Diante da evolução do crime, o MPRJ também deu um passo importante na modernização. A criação do CyberGaeco visa enfrentar a atuação crescente das organizações no ambiente digital. Segundo a promotora Letícia Petriz, "a criação do CyberGaeco representa passo estratégico para a modernização das investigações, diante da crescente atuação das organizações criminosas no ambiente digital. A experiência de outros ministérios públicos com estruturas semelhantes demonstra que a especialização é fundamental para ampliar a efetividade das apurações, especialmente em crimes que envolvem tecnologia, criptomoedas e lavagem de dinheiro".
Os números de 2025 do Gaeco mostram uma estratégia clara: atacar o crime organizado não apenas nas ruas, mas principalmente onde ele mais dói – no seu patrimônio e em suas finanças, buscando desmontar as estruturas econômicas que sustentam suas operações ilegais.