O primeiro perfil sociodemográfico nacional sobre pessoas autistas no Brasil, divulgado nesta quinta-feira (9), revela um cenário de dificuldades no acesso ao diagnóstico e tratamento adequado. O Mapa Autismo Brasil (MAB), realizado pelo Instituto Autismos, ouviu 23.632 pessoas entre março e julho de 2025, incluindo autistas e seus cuidadores, em todos os estados brasileiros.
Os dados mostram que apenas 20,4% dos entrevistados conseguiram confirmar o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo com cerca de 25% da população brasileira tendo acesso a planos de saúde. Quando se trata de terapias, a situação é ainda mais crítica: apenas 15,5% realizam tratamentos pela rede pública, enquanto mais de 60% dependem de planos de saúde ou pagam de forma particular.
"Os resultados do Mapa Autismo Brasil também revelam que 56,5% dos entrevistados informaram que a pessoa autista em questão faz até duas horas semanais de terapia, o que destoa do preconizado internacionalmente – que são terapias multidisciplinares e em carga semanal elevada", destacou o Instituto Autismos em nota.
O estudo chega em um momento importante: em maio de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, pela primeira vez, dados do Censo Demográfico 2022 que mapearam 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil – 1,2% da população brasileira. "Diferentemente do Censo, o Mapa Autismo Brasil faz uma análise socioeconômica e de acesso a serviços de autistas e cuidadores de pessoas autistas, contribuindo com uma avaliação do cenário atual e apontando para demandas de melhorias nas políticas públicas", explicou o instituto.
Perfil do autista brasileiro
As 23.632 entrevistas traçam um retrato detalhado da população autista no país: 60,8% são brancos; 32%, pardos; 5,2%, pretos; 1,1%, amarelo; e 0,25%, indígena. A maioria (65,3%) são homens, enquanto 34,2% são mulheres. Quanto à idade, 72,1% estão na faixa etária até 17 anos, enquanto 27,9% têm entre 18 e 76 anos.
Em termos socioeconômicos, 28,6% têm renda familiar até R$ 2.862; 37,9%, entre R$ 2.862 e R$ 9.540; e 20,33%, acima de R$ 9.540. Quanto ao nível de suporte necessário, 53,7% têm nível 1 (o mais baixo); 33,7%, nível 2; e 12,6%, nível 3 (que requer maior auxílio no dia a dia).
As comorbidades são frequentes: 51,5% têm transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH); 41,1%, transtorno de ansiedade; 27,9%, transtornos do sono; 23,2%, distúrbios gastrointestinais; 19,3%, transtorno do desenvolvimento da linguagem; 19,1%, altas habilidades/superdotação; 17,5%, transtorno depressivo; 16,4%, deficiência intelectual; e 12,1%, transtornos específicos da aprendizagem.
Quem cuida dos autistas
Entre os respondentes responsáveis por pessoas autistas, 96% eram mãe ou pai – desses, 92,4% eram mães. A pesquisa revela um impacto significativo na vida profissional dos cuidadores: 30,47% declararam não possuir renda ou estarem desempregados, enquanto 55,2% informaram ter ensino superior completo ou pós-graduação.
"A elevada proporção de cuidadores fora do mercado de trabalho sugere impacto direto das demandas de cuidado na trajetória profissional, ampliando vulnerabilidades econômicas e dependência de políticas de proteção social", avaliou o Instituto Autismos.
Do total de entrevistados, 76,6% afirmaram utilizar algum tipo de benefício. No entanto, a maior parte é para acesso e identificação: 36,7% usam o cartão de identificação da pessoa com TEA, 30% usam atendimento preferencial em serviços e 20,7% usam vaga de estacionamento para pessoas com deficiência. Apenas 16,6% informaram ter acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Diagnóstico tardio e desigual
O Mapa Autismo Brasil revela dificuldades de acesso ao diagnóstico de TEA pelo SUS e também atraso no diagnóstico de forma geral, o que dificulta intervenções precoces. Os resultados indicam uma concentração de diagnósticos na faixa até 4 anos (51,7%), seguida pela faixa de 5 a 9 anos (17,1%) e pela faixa de 10 a 14 anos (6,1%).
"A diferença entre a mediana (4 anos) e a média (11 anos) revela que, embora a maior parte dos diagnósticos ocorra precocemente, ainda há um número relevante de diagnósticos realizados em idades mais avançadas, que elevam a média da amostra", alertou o Instituto Autismos.
A pesquisa identificou também que os primeiros sinais de TEA são percebidos majoritariamente por familiares próximos (55,9%) ou pela própria pessoa autista (11,4%), enquanto médicos e professores alertaram sobre os primeiros sinais apenas em 7,3% e 9,4% dos casos, respectivamente.
Neurologistas ou neuropediatras foram responsáveis pelo diagnóstico em 67% dos casos, seguidos por psiquiatras (22,9%), o que, para o Instituto Autismos, evidencia a necessidade de acesso a especialistas, nem sempre disponíveis nas redes públicas e mesmo privadas de algumas localidades.
Os dados mostram que 55,2% dos diagnósticos foram feitos na rede particular de saúde, 23% por plano de saúde e apenas 20,4% pelo SUS, sendo que as proporções variam quando consideradas as diferentes regiões do país – a pesquisa indica dependência maior do SUS para diagnóstico no Norte e no Nordeste.
Terapias abaixo do ideal
Entre as terapias mais frequentes, destacam-se psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e terapia ABA (29,8%). Em menor proporção, foram relatadas fisioterapia (12,5%), nutrição (10,2%), musicoterapia (11,0%), psicomotricidade (15,0%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%).
Também se observa que 16,4% dos participantes declararam não realizar terapias. Quando questionados sobre a rede utilizada, 15,5% disseram usar o SUS, enquanto 35,3% informaram usar o plano de saúde, 28,5% disseram fazer pela rede particular e 7,93% disseram usar associações como as associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes).
Entre usuários do SUS, apenas 33,8% fazem terapia ocupacional, em comparação com 64,5% dos usuários de planos de saúde. Usuários do SUS também relataram significativo menor acesso a sessões de psicoterapia, fonoaudiologia, terapia comportamental ABA, psicomotricidade e musicoterapia quando comparado ao acesso pelo plano de saúde.
Os resultados do MAB ainda indicam um investimento mensal em terapias concentrado principalmente nas faixas de R$ 501 a R$ 1 mil (24,8%), de R$ 1.001 a R$ 3 mil (22,2%) e de R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Segundo os dados, 5,7% têm investimento mensal de até R$ 100. Entre os respondentes, 4,3% relataram gastos superiores a R$ 5 mil por mês.
Considerando tanto quem usa a rede pública quanto quem usa a rede privada de saúde, a carga horária semanal informada de terapias, na avaliação do Instituto Autismos, é baixa. A maioria realiza uma hora (25,90%), nenhuma (18,13%) e duas horas (12,44%) semanais de terapia enquanto apenas 1,54% alcança 40 horas ou mais.
"A concentração em poucas horas semanais sugere limitações de acesso, custo e disponibilidade de serviços, indicando que grande parte das pessoas autistas recebe suporte terapêutico aquém do ideal para necessidades mais intensivas", destacou o instituto.
Educação e vida adulta
Os resultados ainda trazem uma fotografia sobre o acesso à educação. Do total, 83,7% informaram que frequentam uma instituição de ensino, sendo 52,26% escola pública e 31% estabelecimento particular, enquanto 16% disseram não frequentar nenhuma instituição.
Em relação aos recursos de acessibilidade e inclusão, 39,9% informaram não receber nenhum tipo de apoio. Entre os apoios mais frequentes, destacam-se educador social, monitor ou tutor (23,8%), acompanhamento especializado, como mediador escolar ou acompanhante terapêutico (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).
"Os dados mostram que a presença na escola não garante, por si só, a inclusão efetiva. A elevada proporção de estudantes sem apoios básicos sugere fragilidade na implementação das políticas de educação inclusiva e desigualdade no acesso aos recursos educacionais previstos em lei", avaliou o Instituto Autismos.
Na faixa de 18 e 76 anos, 29,9% dos respondentes autistas afirmaram estar desempregados ou sem renda, o que, para o instituto, evidencia um desafio estrutural de inclusão. Entre os que afirmaram estar empregados, 21,1% atuam como servidores públicos, 20% têm emprego com carteira assinada, 8,1% trabalham de forma autônoma, 6,7% atuam como pessoa jurídica e 5,9% exercem atividades sem carteira assinada.
O Mapa Autismo Brasil representa um passo importante para entender as necessidades da população autista no país e apontar caminhos para políticas públicas mais eficazes. Com dados concretos sobre acesso a serviços, perfil socioeconômico e desafios no diagnóstico e tratamento, o estudo oferece uma base sólida para que gestores públicos possam planejar ações que realmente atendam às necessidades dessa parcela significativa da população brasileira.

