O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas nesta quarta-feira (1º) à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, classificando o conflito como "desnecessário" e rejeitando as justificativas apresentadas pelos dois países. Em entrevista ao vivo à TV Cidade, em Fortaleza, Lula afirmou que é "mentirosa" a alegação de que o Irã desenvolve armas nucleares, base usada para o ataque.

"Os Estados Unidos da América do Norte se meteram a fazer uma guerra desnecessária no Irã, alegando que, no Irã, tinha arma nuclear ou que estavam tentando fazer arma nuclear. É mentira", disse o presidente. Lula lembrou sua visita ao país persa em 2010, durante seu segundo mandato, quando costurou um acordo sobre enriquecimento de urânio para fins energéticos e não militares. O acordo, no entanto, fracassou pela falta de apoio do governo dos EUA, então comandado por Barack Obama, e da União Europeia.

"Eu digo que é mentira porque eu fui, em 2010, ao Irã, fazer um acordo. E fizemos um acordo que, depois, os EUA não aceitaram nem a União Europeia. Fizemos um acordo para que o Irã pudesse enriquecer o urânio com os mesmo métodos que o Brasil, porque, aqui, nossa Constituição diz que a gente só pode utilizar para fins pacíficos", explicou Lula. O presidente reforçou que não há armas nucleares no Irã e que divergências políticas não deveriam terminar em guerra.

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"Não tem arma nuclear lá. Ou seja, se tem uma divergência política entre Israel, Estados Unidos e Irã, não precisava terminar em guerra. Eles achavam que tinham acabado a guerra porque mataram o Khamenei. Não acabaram a guerra. O Irã é um país com quase 100 milhões de habitantes e uma cultura milenar", acrescentou, referindo-se ao líder supremo iraniano, Ali Khamenei, morto nos ataques.

Os ataques combinados de Estados Unidos e Israel completaram um mês nesta semana, sem perspectiva concreta de um acordo de paz. O conflito levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, rota controlada pelo Irã por onde circulam cerca de 20% dos carregamentos de petróleo no mercado internacional. Como consequência, o preço do barril já aumentou cerca de 50%, impactando economias globais. Pesquisadores já apontam riscos ambientais e climáticos associados ao conflito.

Preço do diesel e fiscalização nos postos

Durante a mesma entrevista, Lula voltou a manifestar preocupação com a escalada no preço do óleo diesel no Brasil, que depende da importação de 30% do que consome. Impactado pela volatilidade do preço do petróleo no mercado internacional, o combustível é a base do transporte rodoviário de cargas, afetando cadeias produtivas de alimentos e produtos.

O presidente reforçou que está em curso um monitoramento rigoroso para identificar aumentos abusivos e que o governo tomou todas as medidas possíveis para conter o encarecimento. "Nós estamos, com a Polícia Federal, com todos os Procons dos estados, fiscalizando, e vamos ter que colocar alguém na cadeia. [A fiscalização] está ativa, minha ordem é para estrada, posto de gasolina", afirmou Lula.

Ele também criticou a situação atual comparando com o período anterior à privatização da BR Distribuidora, no governo Bolsonaro. "A Petrobras baixa o preço, mas não chega na bomba. Quando a gente tinha a BR Distribuidora, podia chegar na bomba, porque o posto era nosso", observou.

Subsídio ao diesel importado

A expectativa do governo federal é publicar, ainda nesta semana, uma medida provisória (MP) que cria um subsídio ao diesel importado, com desconto de R$ 1,20 por litro. A informação foi confirmada na terça-feira (31) pelo ministro Dario Durigan, que afirmou que o governo tenta garantir a adesão de todos os estados antes da publicação.

A proposta prevê que o custo total de R$ 3 bilhões, ao longo de dois meses, seja dividido igualmente entre a União e os estados. A iniciativa tem como objetivo conter a alta dos combustíveis e evitar riscos de desabastecimento, diante da defasagem entre os preços internos e o mercado internacional. Cerca de 80% dos estados brasileiros já indicaram adesão à proposta, segundo o Ministério da Fazenda.

O cenário internacional turbulento, com a guerra no Oriente Médio, e os desafios internos com o preço dos combustíveis mostram um momento delicado para a economia brasileira, que depende de soluções rápidas e eficazes para evitar impactos mais profundos na população e no setor produtivo.