O novo álbum de Luísa Sonza, "Brutal Paraíso", começa com uma ilusão. Os primeiros segundos trazem o som do mar, prometendo um cenário idílico, até que uma interferência rompe a tranquilidade. A estação de rádio muda, o ruído invade e a batida endurece. O que parecia repouso revela tensão, e uma risada soa como deboche. Do paraíso inicial resta apenas um eco.

Essa abertura, com a vinheta "Distrópico", aponta a espinha dorsal do disco: um trabalho de fricção entre camadas sonoras e simbólicas que produzem sentido pelo choque. O mar, recorrente ao longo do álbum, nunca é apenas natureza. É sempre memória de uma utopia que agora retorna atravessada por interferências e por uma instabilidade desiludida.

O álbum nasce desse contraste exposto já em seu título. De um lado, a ideia de Brasil solar, construída sobre uma promessa de felicidade. De outro, a experiência concreta de uma jovem artista que cresceu num país fragmentado e urbano, atravessado por tensões que não cabem nesse imaginário. "Brutal Paraíso" é o oposto de "Bossa Sempre Nova", diz Luísa Sonza, referindo-se ao disco anterior, no qual relia clássicos com Roberto Menescal e Toquinho.

Publicidade
Publicidade

Enquanto o anterior era perfeito e utópico, o novo álbum mostra como ela vê o mundo hoje, de maneira crua. Ao separar os dois discos, a cantora estabelece duas formas de olhar o mundo. A expectativa do paraíso é linda, mas esse lugar não existe, afirma. Para a artista, esse Jardim do Éden está distante da nossa realidade atual.