Em situações de emergência, cada minuto conta. E quando se trata de uma transfusão de sangue, saber o tipo sanguíneo correto do paciente pode ser a diferença entre a vida e a morte. Foi pensando nisso que pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desenvolveram uma solução inovadora: um curativo capaz de identificar o tipo sanguíneo em até dois minutos, diretamente no local do atendimento, sem a necessidade de exames laboratoriais.
Batizada de Blood-Aid, a tecnologia utiliza anticorpos impregnados em um material semelhante a um curativo comum, permitindo detectar os sistemas ABO (tipos A, B e O) e o fator Rh (positivo ou negativo) de forma rápida e visual. A leitura do resultado ocorre por meio da formação de letras e sinais no próprio material, facilitando a interpretação até por profissionais não especializados.
O projeto foi um dos finalistas do Programa de Propriedade Intelectual com Foco no Mercado (Prime), do Governo do Estado do Paraná, que apoia pesquisas de universidades para que se transformem em serviços e produtos inovadores. O programa é realizado em parceria entre a Fundação Araucária, a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) e o Sebrae/PR.
De acordo com o coordenador do projeto e professor do Departamento de Microbiologia do Centro de Ciências Biológicas da UEL, Gerson Nakazato, o projeto está na etapa final de desenvolvimento do curativo, com foco na otimização da visualização dos tipos sanguíneos para garantir uma leitura cada vez mais clara e precisa. "Avançamos agora para a fase de validação, com a realização de testes rigorosos que assegurem a confiabilidade da detecção. Concluída essa etapa, o próximo passo será estabelecer parceria com o setor industrial para viabilizar a produção em larga escala e ampliar o acesso à tecnologia", explica Nakazato.
O Blood-Aid surge diante de um problema relevante: cerca de 40% da população brasileira não sabe qual é o seu tipo sanguíneo, informação essencial em situações críticas como acidentes com hemorragia, quando a transfusão precisa ser imediata e compatível. A expectativa é que a inovação contribua para salvar vidas, especialmente em regiões com acesso limitado a infraestrutura de saúde.
"Especialmente em regiões remotas ou de difícil acesso, não há suporte de laboratório clínico. Nessas situações, o curativo pode ser utilizado para identificar rapidamente o tipo sanguíneo antes de uma transfusão, contribuindo para decisões mais seguras. A tecnologia também tem grande potencial de uso em ambulâncias e atendimentos de emergência", analisa a pesquisadora e também coordenadora do projeto, Renata Kobayashi.
O projeto combina conhecimentos de hematologia, biotecnologia e nanotecnologia. Para aumentar a precisão da leitura, os cientistas utilizam nanopartículas de ouro associadas aos anticorpos, o que intensifica a visualização dos resultados. Além do curativo, a equipe também desenvolveu um kit complementar de detecção sanguínea, que inclui sistema de coleta e aplicação do material.
Segundo o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, Luiz Márcio Spinosa, o Programa Prime tem um papel estratégico ao aproximar a pesquisa científica das demandas reais da sociedade. "Ao apoiar iniciativas como o Blood-Aid, estamos incentivando não apenas a geração de conhecimento, mas a transformação desse conhecimento em soluções concretas, com potencial de mercado e impacto direto na vida das pessoas", afirma Spinosa.
O diretor de Ciência e Tecnologia da Seti, Marcos Aurélio Pelegrina, reforça que o Prime é uma política pública importante para consolidar a integração entre o ambiente acadêmico e as demandas do setor produtivo. "Ao conectar o conhecimento gerado nas universidades às necessidades reais do mercado e da sociedade, o Prime contribui para acelerar tecnologias inovadoras como o curativo Blood-Aid, assegurando que o investimento público em pesquisa se transforme em produtos disponíveis para a população, com ganhos expressivos em redução de custos no sistema de saúde e fortalecimento da autonomia científica paranaense", destaca Pelegrina.
Lançado em 2021, o Prime consolidou-se como uma política pública estratégica para a área de ciência e tecnologia no Paraná, conectando a produção acadêmica às demandas do mercado. Desde a primeira edição, 369 pesquisadores já participaram do programa. Em 2023, a iniciativa passou a contar com o aporte financeiro de R$ 200 mil para os finalistas, reforçando o compromisso do governo estadual em fomentar a inovação.
Na edição 2026 do Prime, estruturada em três etapas, são oferecidas 150 vagas na fase inicial em um curso de formação empreendedora, e R$ 2 milhões em aporte financeiro distribuídos entre até 10 finalistas, com R$ 200 mil para cada projeto. As inscrições são gratuitas e seguem até 22 de abril. O resultado da primeira fase será divulgado a partir de 29 de abril e as atividades do curso de formação estão previstas para começar em 6 de maio.
Além de pesquisadores, também podem participar empreendedores de startups paranaenses de base tecnológica que buscam desenvolver negócios de impacto a partir da inovação científica. O projeto Blood-Aid, que foi um dos finalistas da edição de 2024 do Prime, recebeu o recurso de R$ 181 mil para avançar em seu desenvolvimento.

