Em um cenário onde a aceitação das diferenças se mostra cada vez mais necessária, o carnaval surge como um espaço privilegiado para essa convivência. É com essa perspectiva revolucionária que o Bloco do Amor consolida sua trajetória de 11 anos na capital federal, transformando-se em uma das celebrações mais emblemáticas do Distrito Federal.
Neste sábado de carnaval, os arredores da Biblioteca Nacional e do Museu Nacional receberam novamente o público diverso que faz do bloco um território livre de preconceitos. Segundo os organizadores, a edição anterior reuniu cerca de 70 mil pessoas, número que reflete o crescimento constante da iniciativa desde sua fundação em 2015.
Letícia Helena, coordenadora geral do bloco e formada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), explica as origens do movimento: "Nascemos de um trabalho voluntário na Via S2 do Plano Piloto, onde havia muitos profissionais que vendiam amor. Foi ali a primeira edição do bloco. Como cresceu muito, o espaço não comportava mais o público, mudando para a área externa do Museu Nacional de Brasília".
A edição de 2026 trouxe o lema "Sonhar como Ato de Existência", proposta que enxerga o sonho e a alegria como ferramentas de resistência e transformação social. A celebração integrou a Plataforma Monumental, estrutura montada para comportar diversos eventos ao longo de quatro dias.
A diversidade se manifesta em múltiplas dimensões no Bloco do Amor. "A diversidade está presente, inclusive, na variedade de ritmos que empurram os foliões, indo do axé retrô ao eletrônico, passando pela música pop, MPB e pelo forró", detalhou Letícia Helena em entrevista à Agência Brasil.
Para os frequentadores assíduos, como o casal Fernando Franq, 34 anos, e Ana Flávia Garcia, 53 anos, o bloco representa muito mais que diversão. "É um ambiente com o qual nos identificamos, de muita arte e com muitos artistas. Um lugar seguro para a comunidade LGBT, organizado por amigos que também estão em nossos corações", afirmou Fernando.
Ana Flávia complementa: "É um ambiente reverberado por pessoas apropriadas do próprio corpo. Aqui, todos são aceitos". Ela defende que, em sua essência, "o carnaval é revolucionário, quando agrega respeito e aceitação ao pensamento coletivo".
Os resultados concretos dessa filosofia são celebrados pela organização. Letícia Helena comemora: "Para você ter uma ideia, o número de casos de assédio eram muito grandes no começo. Mas em 2024 conseguimos fazer uma festa que, segundo a Secretaria de Segurança Pública, zerou a quantidade de registros de violência e assédio contra mulheres".
Esse ambiente seguro atrai tanto veteranos quanto estreantes. Clarisse Pontes, 22 anos, recém-formada em Biologia, experimentava seu primeiro carnaval: "É a primeira vez que vou a um bloco de carnaval. Penso que, como disseram aqui, os espaços de Brasília são de todos, com todos, para todos. Que a gente tenha um carnaval de muita diversidade e respeito".
Alasca Ricarte, 23 anos, estudante de design da UnB com quatro edições do Bloco do Amor no currículo, veste uma fantasia que mistura o mito grego de Dionísio com a bandeira da bisexualidade. Para ele, "o que mais agrada aqui é isso: ser livre como quero, ser aceito e aceitar a todos como todos são".
O estudante faz uma análise sobre os avanços sociais: "O mundo tem conseguido avançar no sentido da aceitação das diferenças, ainda que haja forças atuando sempre no sentido inverso". Ele lamenta que "Brasília ainda seja um lugar onde pessoas conservadoras e preconceituosas tentam desmanchar o carnaval e a liberdade que ele representa".
A busca por respeito atrai também famílias inteiras. Ricardo Maurício, 41 anos, compareceu com esposa e filha de 7 anos: "Sempre trabalhei esse tema da diversidade com a minha família, até porque temos uma família diversa. Respeitamos diferenças e vivemos na diversidade de um mundo que é grande e diverso. Quero que minha filha saiba disso, e que compreenda a riqueza das diferenças".
Ana Luíza, 25 anos, estudante, escolheu o Bloco do Amor justamente pela segurança: "Vi muito, em outros blocos, mulheres sendo desrespeitadas por homens. A meu ver, carnaval, para ser bom, tem de ser curtido com respeito à liberdade. Vim aqui porque gosto desse ambiente de aceitação, e aceitação significa, também, segurança".
Letícia Helena atribui parte do sucesso ao trabalho de preparação: "Temos até protocolos indicando como agir nas mais diversas situações". Essa estruturação permite que o bloco mantenha seu caráter espontâneo enquanto garante proteção aos participantes.
Em seus 11 anos de existência, o Bloco do Amor materializa a ideia de que o carnaval pode ser mais que festa: pode ser espaço de transformação social, onde o respeito e o afeto coletivo criam as condições para que todos possam celebrar suas existências em plenitude. Como resume Letícia Helena, o bloco surgiu da "necessidade de discutirmos o amor nesta cidade; o que queremos e o que somos, de forma a trazer mais representatividade para os espaços".

