Um estudo brasileiro traz um alerta importante para as unidades de terapia intensiva de todo o país: quase metade dos pacientes com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) desenvolve problemas renais graves que podem levar à morte. A pesquisa, conduzida por especialistas da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital das Clínicas, revela que 49,9% desses pacientes apresentam Injúria Renal Aguda (IRA), uma condição caracterizada pela perda súbita da capacidade dos rins de filtrar o sangue.
O que mais preocupa os médicos é que essa complicação está diretamente associada a um aumento significativo do risco de óbito. Publicado no renomado Journal of Critical Care, o trabalho mostra como pulmões e rins estão profundamente interligados em situações críticas, criando um ciclo clínico de alto risco que exige monitoramento rigoroso nas UTIs brasileiras.
A pesquisa foi coordenada pelos professores Carlos Carvalho e Emmanuel A. Burdmann, ambos da FMUSP e pesquisadores do Projeto Temático Pós-Covid-19. O estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), além de doações anônimas e do crowdfunding #HCCOMVIDA. Francisco Z. Mattedi, doutorando da FMUSP, assina como primeiro autor do artigo.
Efeito dominó entre órgãos
O estudo evidencia que pulmão e rim não falham de maneira isolada. Esse mecanismo, conhecido cientificamente como "conversa cruzada" (do inglês crosstalk), cria um ciclo perigoso que pode elevar em até 11 vezes o risco de o paciente desenvolver lesão renal enquanto está sob ventilação mecânica. A inflamação pulmonar intensa e o próprio tratamento com respiradores artificiais podem desencadear, em poucos dias, o comprometimento da função renal.
Para mapear essa interação complexa, os pesquisadores revisaram nada menos que 2.943 estudos internacionais publicados até janeiro de 2024. Após uma triagem rigorosa, 28 trabalhos foram incluídos na síntese final que deu base às conclusões alarmantes.
Rapidez assustadora
Outro dado que chama atenção é a velocidade com que a complicação renal aparece. A lesão nos rins costuma surgir, em média, apenas dois dias após o diagnóstico da SDRA. Em cinco dos estudos analisados, a Injúria Renal Aguda foi identificada como fator independente associado ao óbito, ou seja, mesmo quando outros fatores são considerados, o problema renal por si só aumenta o risco de morte.
Impacto da covid-19
A pandemia trouxe uma dimensão ainda mais grave para esse quadro. Em pacientes com SDRA causada especificamente pela covid-19, a taxa de falência renal atingiu 52,6%, superando a média geral. O estudo integra o Projeto Temático Pós-Covid-19 da FMUSP, que investiga as consequências de longo prazo da doença em pacientes atendidos no HC durante a crise sanitária. A falência renal foi uma das complicações extrapulmonares mais comuns e letais observadas nos sobreviventes da covid-19.
Apesar da alta frequência dessas complicações, a ciência ainda sabe pouco sobre o futuro desses pacientes. Apenas três dos estudos analisados avaliaram a recuperação da função renal após o episódio agudo, e nenhum deles investigou o impacto a longo prazo, como o risco de progressão para doença renal crônica após a alta hospitalar.
Futuro incerto e necessidade de mais pesquisas
"O crosstalk pulmão-rim ainda é pouco compreendido. Estudos adicionais devem ser conduzidos para caracterizar com precisão o impacto da SDRA no desenvolvimento subsequente de IRA, na progressão para doença renal crônica e na necessidade de hemodiálise", afirma Francisco Z. Mattedi, primeiro autor do artigo.
Os resultados destacam a importância do monitoramento renal precoce em pacientes com problemas respiratórios graves, especialmente na era pós-pandemia, quando muitos sobreviventes da covid-19 podem carregar sequelas silenciosas. Para os intensivistas brasileiros, o estudo serve como um alerta para redobrar a atenção aos sinais de comprometimento renal em pacientes com SDRA, independentemente da causa original da condição respiratória.

